Qual é a criança que perante em situações vulneráveis nunca desejou a mais extraordinária salvação, nem que seja por vias de algum dom escondido e singular? A resposta para essa fantasia urgente parece de certa forma encontrar-se nesta animação francesa de Antoine Charreyron, The Prodigies. Baseado numa novela do francês Bernard Lenteric, intitulada La Nuit des Enfants Rois, esta fita expõe em modo de catálogo os mais variados temas de ameaça diretas e indiretas à infância, desde a violência, passando pelo abuso até mesmo a exploração infantil, tudo arquitetado de forma a encaixar numa premissa digna de ficção cientifica.
Sabendo que é cada vez mais influente na sociedade a “onda” do universo dos super-heróis, porém nos dias que decorrem questiona-se maioritariamente as suas ingénuas intenções de existência, The Prodigies invoca uma fantasia inerente de qualquer criança para transmitir a sensação de utilidade desse desejo universal de sobrehumanidade. A sua necessidade como combate dos “fantasmas que nos assombram” ou da vulnerabilidade com que aceitamos o nosso destino com rendição, apoiando nossas crenças nestas “divindades”, meras figuras substitutas da impotência das forças autoritárias comuns.
Fugindo dessas questões que muito bem poderiam ser aprofundadas em outra altura, tendo em conta a crescente “invasão” deste subgénero cada vez mais rentável, The Prodigies de Charreyron é uma animação adulta que se destaca pelo seu visual estilístico, imensamente flexível nas suas sequências de ação. Todavia, satisfazendo a nível técnico, a fita é enfraquecida por um desequilíbrio narrativo longitudinal, onde encarna como pedestre em territórios já vistos por outras obras cinematográficas, mas ineficaz em extrair desta uma crescente orientação objetiva, originando diversos impasses e uma diagnosticada esquizofrenia entre a ação que decorre e o género a distinguir. Por vezes perdendo no seu próprio campo, querendo ser mais diversificado em termos visuais e estilísticos do que apostar na coerência do seu argumento, The Prodigies anuncia-se, não como inovador nem pioneiro, mas entusiasmante na forma como transmite ocasionalmente as suas situações dignas do cinema hollywoodesco.
A animação algo alternativa resulta em atribuir uma aura sugestiva, não muito longe dos mais variados videojogos, onde infelizmente o cinema de ação mais frenético possui dificuldades em separar de tais tiques. Em suma, com problemas graves em decidir se “é carne, ou peixe”, resulta num passageiro exercício visual, nada mais. Quanto as questões iniciadas pela fita de Antoine Charreyron ficarão apenas, isso mesmo … no início.
O melhor – o visual
O pior – demasiado trapalhão em termos narrativos, dificilmente consegue gerar por completo uma temática. As questões foram abordadas, mas não aprofundadas, perdidas por entre a sua necessidade estilística.

Hugo Gomes

