German (Fabrice Luchini) é um professor de Francês, amargurado por nunca ter vingado como escritor, que acha ter encontrado a sua versão com talento, na sua aula. Claude (Ernst Umhauer) é um aluno discreto, sem uma família estruturada, com tendências “voyeurísticas” fora do comum e com o talento para a escrita que o seu professor nunca teve.
Numa das aulas, Claude entrega uma composição que relatava a sua tentativa, conseguida, de entrar e observar a casa e as dinâmicas familiares do seu melhor amigo, Rafa. Ao ler isso, German fica preocupado e, simultaneamente, impressionado com o potencial de escrita do rapaz. No meio, temos o casamento de German com Jeanne (Kristin Scott Thomas) a desmoronar-se suavemente ao longo da duração do filme.
Enquanto isso, Claude começa a fazer cada vez mais parte da casa do seu melhor amigo, desejando a sua mãe Esther (Emmanuelle Seigner), uma dona de casa desesperada, mas que sublima esse desespero atrás de uma máscara de delicadeza e fragilidade. Paralelamente, continua a escrever sobre as suas idas aquela casa, dando cada capitulo ao seu professor, que o vai aconselhando sobre a sua escrita.
O filme deambula entre a ligeireza e um humor subtil e o drama que jaz nas profundezas de cada personagem. A história é contada com tempo, sem pressas, mas, paradoxalmente, o tempo passa rápido, sem nós darmos conta. Ozon teve o toque de Midas com esta obra e consegue juntar o que melhor sabe fazer: a ligeireza e o humor (como já fez em Potiche”) e o drama e a inteligência de diálogos (já o tinha feito no brilhante, “Swimming Pool”, por exemplo). Ozon tem provado ao longo dos anos que premissas potencialmente aborrecidas e longe do “show off” de Hollywood podem conter mais adrenalina que qualquer Velocidade Furiosa que se encontra por aí. Este filme contém os temas e personagens do cinema europeu a um ritmo Hollywoodesco.
O elenco foi magistralmente escolhido, é complicado tentar destacar só um, porque no geral, estiveram todos muito bem. Destaque talvez para Emmanuelle Seigner, que apesar de não ser figura principal, encanta e apaixona qualquer um, em cada frase que profere.
Um filme engraçado sem sacrificar a história e sem forçar, com um argumento inteligente sem ser pretensioso e com um elenco excelente. O final acaba por ser “aquele que faz mais sentido, sem nunca nos ter passado pela cabeça”, parafraseando Gerard.

Nuno Miguel Pereira

