A estreia do ator Mark Ruffalo (The Kids Are All Right) valeu-lhe o Prémio Especial de Júri na edição de 2010 do Festival de Sundance, onde anualmente se comemora o que de melhor se faz no cinema independente norte-americano. Com três anos de atraso a chegar ao nosso país, Sympathy for Delicious (Um Toque de Fé, como titulo traduzido) é um filme inspirado na tragédia pessoal de Christopher Thornton, o protagonista e argumentista da obra de Ruffalo. Ele é Dean “Delicious” O’Dwyer, um DJ de carreira promissora que após um acidente que o deixa paraplégico, tenta sobreviver a todo o custo nas ruas de Los Angeles, enquanto incansavelmente procura um “milagre” para que volte novamente a andar. Contudo, miraculosamente, Dean adquire um dom mágico em curar mazelas e doenças com as próprias mãos, sendo incapaz de o fazer a si próprio. Um sinal de Deus interpretado pelo Padre Joe (Mark Ruffalo), que acompanhou o caso de Dean de perto. Este incentiva-o a curar pessoas em troca de donativos para o seu Abrigo, mas Dean possui outros motivos e ideais. Assim sendo, o DJ parte, integrado numa banda de rock convencional, em “perseguição” de fama e fortuna.
Uma câmara constantemente mexida e inquieta sem influências criativas e uma realização algo míope por parte de Mark Ruffalo cedo limita qualquer “sopro divino” em Sympathy for Delicious. Estamos perante uma obra seca em termos dramáticos, repleta de pseudomoralismos disfarçados que ocultam uma sorrateira evangelização do guião de Christopher Thornton, descrito no tema e personagens. Até certo ponto as emoções trazidas por Sympathy for Delicious são nulas, guiadas por um vácuo que as confunde com demagogias. Se não fosse pelo desempenho esforçado do protagonista, Mark Ruffalo, e um Orlando Bloom a trazer à memória uma exagerada figura de Jim Morrison, este seria decerto uma obra cinematográfica a esquecer o quanto antes.
Abordada como uma história no mínimo curiosa, mas retratada com os maiores dos desequilíbrios e inocuidades (as personagens parecem meros esboços), Sympathy for Delicious serve apenas como entrada do ator na posição de realizador, sem que isso o destaque. Maniqueísmos e morais num filme que por pouco sairia num panfletismo religioso.
O melhor – As interpretações, em especial para Orlando Bloom
O pior – Tem um certo “cheiro” de produto evangelizado

Hugo Gomes

