No início do século XX o cinema entrava no plano do entretenimento e na arte de divertir através de um mágico, Georges Mélies – que encantava o seu público com uma câmara fixa, alguns ilusionismos e umas muito rústicas trucagens através da edição. Cem anos depois, o seu conterrâneo Louis Leterrier mostra que o cinema aprendeu muitos truques na hora de agradar um público cada vez mais ávido por rapidez e ação: com movimentos de câmaras alucinantes, ele apresenta os seus mágicos super-heróis num primeiro terço de tirar o fôlego.
E logo se fica a saber que estes não passam de uns bandalhos. Se “a cada minuto nasce um otário”, como diz a certa altura Thaddeus Bradley (Morgan Freeman), é de enganá-los que vivem, a atuar isoladamente, os futuros Quatro Cavaleiros: Daniel Atlas (Jesse Eisenberg), Merritt McKinney (Woody Harrelson), Henley Reeves (Isla Fisher) e Jack Wilder (Dave Franco). Uma enigmática carta de baralho, com a qual cada um deles tropeça a certa altura, é o signo que os levará a unirem-se para uma misteriosa missão.
A técnica de Leterrier impressiona mais aqui do que na jornada heróica de Duelo de Titãs ou na ação de super-herói de Hulk, seus trabalhos anteriores, onde se utiliza de um certo know-how coletivo dos géneros em questão. Muito mais do que reproduzir um par de mágicas bem-feitas, como já se viu em outros filmes sobre ilusionistas (Houdini – O Último Grande Mágico ou O Ilusionista, por exemplo), o realizador aproveita as possibilidades da magia para dar ao seu material um tratamento acima da média. Os truques mirabolantes e as inventivas explicações que vão sendo fornecidas esporadicamente, vão ligando as histórias e apresentando soluções variadas – equiparando-se a um bom mágico que oferece difíceis enigmas para resolver.
Houve ambição no argumento, onde se resolveu dar ao espectador três histórias para seguir: a dos mágicos, de uma investigação conduzida pelo desastrado polícia Dylan Rhodes (Mark Ruffalo) e sua partner francesa, Alma Vargas (Mélanie Laurent) e o duelo entre um mágico milionário (Freeman) e um mega-empresário, Arthur Tressler (Michael Caine).
Do meio para frente do filme, o ritmo continua rápido, a imaginação é que não – quando a cartola dos argumentistas parece ter esvaziado e a inventividade inicial dá lugar a perseguições de carros, golpes a Ocean’s Eleven, planos mirabolantes, twists difíceis de explicar e, deixando no final desta enorme pantomina, um certo ar de megalomania.
Em termos temáticos, Mestres da Ilusão brinca com a vaidade dos mágicos, cujo enorme ego os transforma em vítima da própria ilusão que querem criar. Paralelamente, atribui uma motivação aos protagonistas (não de todo convincente) que transcende a costumeira ganância materialista.
De forma geral, o filme tem momentos muito engraçados, um bom mistério, e até mesmo romance (meio pobrezinho, deve-se dizer) num filme divertido. Um elenco de enorme qualidade garante um saldo final positivo.
O Melhor: a inventividade com que se mistura magia e cinema
O Pior: os momentos de lugares comuns

Roni Nunes

