Há uns anos, num episódio de Halloween dos Simpsons, Lucy Lawless justificava todas as pequenas incoerências da série Xena com a resposta “a wizard did it“. De facto, quanto mais longa for uma série, maior a probabilidade de qualquer produto original sobre ela apresentar pequenas faltas para com “o cânone” e mais exigentes são os seus fãs. Quando, em 2009, J. J. Abrams pegou na já muito explorada série Star Trek, para poder ganhar mais liberdade, encontrou o seu próprio “wizard”, criando um universo paralelo. Se esse filme beneficiou, à conta dessa invenção, de uma maior tolerância dos seus fãs, “Star Trek Into Darkness” parece não estar já abrangido por ela.
O filme conta mais uma aventura da equipa já tão conhecida criada na série original há quase 50 anos, com a relação central de Spock e Kirk, fazendo referências às séries e aos filmes anteriores, ao mesmo tempo que permite que alguém que nunca tenha tido contacto com a série consiga compreender tudo o que vai acontecendo no ecrã. A equipa tem de lidar com John Harrison, um ex-agente da Federação responsável por um ataque terrorista a uma das suas instalações.
Apesar de ter sido recebido de forma positiva, tanto pela crítica como pelo público, o filme tem sido alvo de algumas críticas, principalmente dos fãs. Se algumas são tecnicistas (o teletransporte usado não permitia que Harrison atravessasse metade da galáxia, etc), outras são fruto da idealização da série original: como se pode criticar a cena em que Alice Eve aparece de roupa interior, quando a série original estava pejada de mulheres mais cobertas por tinta do que por roupas? Outro argumento apresentado é a falta de conversa: qualquer uma das séries tem discussões intermináveis sobre a situação que o episódio foca, bem como temas filosóficos sobre a existência e o que nos faz humanos. Se este formato pode funcionar bem numa série, num filme pode fazer com que este se arraste. Para além disso, não se pode acusar este filme de ser light nos temas, só que explora-os mais nas acções das personagens do que nas suas palavras: explora conceitos de vingança, justiça, intervenção, observação, responsabilidade, individualismo, colectivismo, amizade, emoção, medo de morrer, complexidade das relações e outros temas, isto sem nunca sacrificar a acção e sem perder o ritmo.
Abrams consegue criar em Star Trek Into Darkness um futuro em que a tecnologia é credível, quase transparente de tão avançada, com algumas imagens muito fortes e personagens completos e realistas. Ficar preso a ideias do que devia ser um filme dentro desta série já com tantos anos acaba por limitar quem o faz e só atrasa a absorção do filme para o cânone. Atrasa, sim, porque não há qualquer dúvida que fará parte dele. Não é como se houvesse para aqui histórias de midi-chlorians ou o Jar Jar Binks.
O Melhor: O ritmo, as imagens, a música.
O Pior: Há coisas que só farão sentido para quem já conhece a série.

João Miranda

