Em 1995 Richard Linklater punha um casal que se encontrava por acaso num comboio a perambular pelas ruas de Viena e a conversar sobre tudo e mais alguma coisa. O parâmetro de Antes do Amanhecer era o do mais puro realismo indie: toda a ação se passava num único dia (recurso de seu filme anterior, “Juventude Inconsciente“, também excelente), onde se enganava o arquétipo supremo do argumento hollywoodiano (uma história com começo, meio e fim) e extraía toda a força do filme das interpretações naturalistas, dos personagens magnificamente construídos e dos diálogos inteligentes. A unir beleza, poesia e romance, o resultado era um dos mais belos filmes da década.
Nove anos depois, Antes do Anoitecer era uma sequência digna: Céline (Julie Delpy) e Jesse (Ethan Hawke) encontravam-se novamente e circulavam por Paris novamente a falar de tudo – sempre com um dos temas caros a Linklater, a transitoriedade, a enquadrar conceitualmente a obra.
Esse universo está de volta em Antes da Meia-Noite: nos primeiros momentos do filme fica-se a saber que após Jesse ter perdido o seu avião enquanto Céline imitava Nina Simone no filme anterior, eles construíram um relacionamento, tiveram duas filhas e agora passam férias na Grécia a convite de um escritor amigo dele.
De certa forma o filme é exatamente aquilo que se espera e por causa disto acaba por ser dececionante. É que depois dos filhos e da rotina de oito anos de convivência, é perfeitamente aceitável que o romance já não seja o mesmo, a suas breves perambulações pelas ruas de uma pequena cidade grega seja um acaso em anos e que as amplas e inocentes temáticas de antes fiquem agora excessivamente restritas ao seu próprio relacionamento. E isso é tão real que chega ser chato.
Pior que isso é que, de alguma forma, a própria imaginação dos três argumentistas (Linklater, Hawke e Delpy) acompanha o mesmo desgaste que o relacionamento entre os dois experimenta. No caso do tema da transitoriedade, por exemplo, que em “Antes do Amanhecer” é sutilmente abordado em cenas magistrais, como a do mendigo-poeta na beira do rio ou dos planos finais com Viena a amanhecer quando os dois amantes por um dia haviam partido, aqui o tema é focado explicitamente várias vezes, como se houvesse uma necessidade pouco sutil de enfatizar do que aqui se trata.
Os diálogos também perderam um tanto em universalidade e aparecem excessivamente restritos a um desgastado “duelo” homem x mulher, onde a partir de um certo ponto ninguém põe travões a Céline – desfilando uma longa arenga feminista de mulher-pobre-coitada-a-tomar-conta-dos-filhos repleta de lugares comuns e a trair a estrutura das histórias anteriores em termos de tempo de antena. Aliás, é bem provável – a julgar pelo seu abominável “2 Dias em Nova Iorque” – que seja Delpy a trazer para aqui um humor brejeiro (e foleiro) completamente ausente dos outros trabalhos do realizador. Por sorte o humor intestinal que grassava na obra dela só teve por cá uma única menção.
Por outro lado, é certo que quando comparado à concorrência está-se muito à frente quando se fala em fala em obras com conteúdo. Apesar dos pontos negativos, não deixa de ser notável que Linklater consiga fazer uma trilogia de sucessos indies com filmes belos, poéticos e inteligentes – quando as sequelas são normalmente destinadas a blockbusters que, por razões puramente mercantis, exploram até a náusea franquias que não tem mais nada a oferecer.
O Melhor: o facto de Linklater conseguir fazer uma trilogia onde todos os filmes são importantes
O Pior: o universo mental dos argumentistas encurtou

Roni Nunes

