Quando fica a saber da nova missão da Enterprise, o dr. Scott (Simon Pegg) faz um comentário bastante elucidativo: “afinal, o que nós somos, exploradores ou soldados”? A pergunta é mais do que pertinente e vem de encontro, tanto da motivação da história, quanto ao problema essencial deste segundo capítulo da ressurreição do franchise pelas mãos de J.J. Abrams.
No caso do enredo, trata-se da perseguição movida pela nave espacial e seus famosos tripulantes a um homem (terrorista?) que explodiu um arquivo central em Londres e fugiu para uma zona interdita aos habitantes da Terra, cuja transposição dos limites pode causar uma guerra intergaláctica. É o fundo puramente militar da missão (e do filme) que incomoda Scott: nada de descobrir novos mundos ou conhecer diferentes civilizações, mas meramente uma operação vingativa para executar um criminoso (sem julgamento, como enfatiza o dr. Spock).
Sintomaticamente, é na segunda (e não na primeira) adaptação cinematográfica, A Ira de Khan, de 1981, que os dois filmes de Abrams foram buscar inspiração e mais personagens secundários. Afinal, foi neste filme (e não no primeiro, considerado demasiado contemplativo) que os produtores encontraram o que viria definir a série em termos cinematográficos: uma fórmula que incluía menos descobertas e exploração, mais ação.
Mas ao longo dos seis filmes com a tripulação clássica, as duas coisas mantiveram-se dentro de um equilíbrio, onde aos desafios mais físicos eram contrabalançados por um permanente tom de mistério e descoberta. Nada se encontra de comparável ao que acontece por aqui, nem mesmo ao primeiro filme de Abrams – que com Star Trek (2009) ressuscitou a franquia com enorme vigor após a queda no futuro incerto com o falhanço de “Nemesis”.
É que mesmo aí a ação era doseada em função da difícil missão dos argumentistas em criar satisfatoriamente um background e uma história para um passado dos personagens, ao mesmo tempo que tinha de trazer atores com carisma suficiente para os recriar e atribuir-lhes um novo batismo. Dentro de um quadro onde a ficção científica perdia terreno mas não era de todo descurada, até a perseguição movida a Kirk (Chris Pine) por dois monstros gigantes, para além de muito divertida, fazia todo o sentido.
Mas depois de fazer o mais difícil, acertando as contas com o fantasma de uma série mítica, num filme que além de qualidades artísticas teve sucesso de público, a franquia envereda, com Into Darkness, por uma via demasiado superficial, com uma história muito pobre e que abre mão de quase todos os elementos e conceitos que fazem a graça da sci-fi. Depois de caracterizados no primeiro filme, os personagens gravitam na redundância – quando não desaparecem completamente em termos de significado (a Uhura de Zoe Saldana) ou a de Alice Eve, cuja missão nesta expedição resume-se a aparecer de roupa interior.
Por outras palavras, a transitar entre a banalidade e a eficácia, tornou-se numa obra que direcionada exclusivamente para o público do cinema de ação. O conjunto de referências à série original (para cinema), que se empilham umas sobre as outras, para além das cenas completamente copiadas de A Ira de Khan, em vez de estabelecer um diálogo saudável com o passado apenas reforça esta esterilidade.
Quem sobe um bocado a fasquia é o antagonista, dr. Harrison (Benedict Cumberbatch, da série “Sherlock”, da BBC). Encurralado numa pequena sala e a praticar um jogo psicológico à Hannibal Lecter, ele é um verdadeiro herói, digo, vilão: com a sua perfeição geneticamente modificada, ele sabe tudo, bate em toda a gente e salva meio mundo antes de tentar submeter a malta à sua psicopatia natural.
Mas sabe a pouco. Às tantas, alguém recita, como se fosse a bíblia, o lema que acompanha Star Trek desde o seu primeiro episódio televisivo nos remotos anos 60: “Espaço, a fronteira final. Estas são as viagens da nave espacial Enterprise. Numa missão (…) para explorar novas formas de vida e novas civilizações e ir onde nunca ninguém foi“. Depois de duas horas de batalhas, explosões e helicópteros despencando à Die Hard, fica difícil não fazer coro com a angústia do dr. Scott… Que raio de missão exploratória é essa?
O Melhor: funciona como diversão para aficionados do género ação
O Pior: tem muito pouco a ver com o que havia de interessante em “Star Trek”

Roni Nunes

