A África de Sul sob o comando de ferro de Pieter Botha, no final dos anos 60, teve o seu próprio Bob Dylan e ele se chamava Rodriguez. Toda a juventude esclarecida que, ainda de forma tímida, se revoltava contra um regime extremamente opressor, tinha uma cópia de um álbum de Rodriguez ao lado dos de Dylan ou dos Beatles. Rodriguez vendia mais álbuns que Elvis Presley mas… ninguém fazia a mais remota de quem ele era! Sabia-se que vinha dos Estados Unidos – e nem isso com muita certeza…
Mas, mesmo em tempos em que não existia internet, só o terrível bloqueio a que o país estava submetido por causa do apartheid pode explicar como se passaram tantos anos sem que não se conhecesse mais nada do cantor além do (pouco) que se deixava vislumbrar nas suas letras. Até que um fã/jornalista finalmente resolveu armar-se em detetive para descobrir: quem foi, afinal, Rodriguez? Estes são os primeiros minutos do filme e é tudo que se precisa saber para embarcar nesta viagem que é uma das belas experiências cinematográficas dos últimos tempos.
Não é que o realizador sueco Malik Bendjelloul tenha precisado de muito: com uma história extraordinária em mãos, o que ele teve foi sabedoria e sensibilidade para geri-la com os recursos mais elementares do cinema documental – limitados quase a depoimentos/testemunhos e umas poucas imagens de arquivo.
Apesar disto, o espectador muito rapidamente esquece que está a ver um documentário, demonstrando claramente que quando se associa o género a filmes chatos, é porque tem se assistido, ou a filmes com tratamento equivocado a boas temáticas, ou a obras a contar as histórias erradas.
A beneficiar de uma história que parte da investigação de um mistério, Bendjelloul não desperdiça as suas fichas e até mesmo reserva um belo twist para uma certa altura do filme. A partir daí, os dois terços finais são da mais pura emoção – um hino de poesia, amor à música (de todos os envolvidos) e simplicidade.
O Melhor: a história extraordinária e a sensibilidade do realizador para contá-la
O Pior: que as sinopses que circulam por aí contem tanto sobre a história

Roni Nunes

