Segundo Reginald (Tom Courtenay), a ópera é uma demonstração de emoções através do timbre e tom, utilizando a voz como o mais forte dos catalisadores desses mesmos sentimentos e não as imagens. Por exemplo, quando alguém na ópera é esfaqueado não sangra, mas sim canta. Quartet, baseado na peça de Ronald Harwood (o qual também contribuiu para o argumento do filme), decorre quase inteiramente no Beecham House, um lar de terceira idade para artistas aposentados que nos últimos tempos têm vivido dias de barafunda em prol dos treinos para uma festa de angariação de fundos – que é vista como a única salvação para a longevidade do lar. No seio desta comunidade encontramos um harmonioso trio de tenores; Reginald, Wilfred (Billy Connolly) e Cecily (Pauline Collins), inseparáveis companheiros na música e na vida. Contudo, os seus dias de pura harmonia irão alterar-se drasticamente com a chegada de Jean Horton (uma fantástica Maggie Smith), que invocará nos três memórias de paixão, traição, amor ou ódio.
Filme cómico-dramático ligeiro, Quarteto tem acima de tudo a relevância de ser a estreia do ator Dustin Hoffman na realização, um trabalho deveras competente e simbiótico na emoção trazida pelas suas personagens. Para além da música clássica e Verdi como personagem extra, a obra é prioritariamente um ensaio sobre a terceira idade vista pelo realizador como uma nova adolescência, claramente uma influência adquirida por Hoffman que, com 75 anos, deixou de ser um jovem há muito, mas encontra-se numa fase de vida onde viver e saborear a vida é possível, mesmo sob um turbilhão de reminscências. Quartet tem ainda a tendência de se tornar numa confirmação de talento da “velha guarda” britânica, não falando apenas no quarteto protagonista que tem carisma para dar e vender, mas também no elenco composto por um Michael Gambon divertido e outros artistas de anosa glória a compor o leque de secundários.
Consequentemente, Quarteto é um “feel-good movie” que mesmo que passageiro consegue arrancar um sorriso ao espectador no final da sessão através de momentos singelos, puros e reverentes. Dustin Hoffman pode não ser um maestro digno das maiores e organizadas orquestras, mas a sua estreia está longe de ser embaraçosa. Para fãs de música clássica e não só.
O Melhor – O elenco
O Pior – Comédias de terceira idade não se fazem grandes sucessos de bilheteira, será que Quartet irá contrariar essa tendência?

Hugo Gomes

