1ª Mostra de Cinema Judaico: «Zaytoun» por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

O cenário no Líbano em 1982 é complexo: de um lado está a PLO (organização que visa a criação do estado palestiniano no Médio Oriente), apoiado pela Síria; do outro as forças israelitas com suporte ocidental, que invadiram o país e desencadearam a Guerra do Líbano. Dissidentes islâmicos e cristãos acrescentam mais elementos ao caos. No meio está a população – entre os quais os moradores de Beirute e dos campos de refugiados palestinianos existentes na cidade.

Destes locais fogem ocasionalmente um bando de garotos que, contrariando ordens familiares, saem de lá para vaguear pela cidade ou vender cigarros – como Fahed (Abdallah El Akal), cuja tragédia familiar o aproxima das forças da PLO. Quando um piloto das forças invasoras (Stephen Dorff) cai na posse do seu grupo, será ele a fazer as “honras” de o maltratar. Mas, após mais uns tantos dissabores, os dois terminam numa fuga conjunta pelas terras áridas ou devastadas do Líbano.

O cinema clássico norte-americano (e algum moderno) inspira esta típica associação “buddy-road movie”, com uma abertura cheia de estilo à maneira de A Sede do Mal, de Orson Welles. A realização segura de Eran Riklis (de O Limoeiro e A Viagem do Diretor) garante um filme na sua maior parte dramático e interessante, com boas doses de humor na receita – embora em alguns tenha dificuldade em levar adiante uma história quase toda baseada nos dois personagens principais.

A exploração dos conflitos entre os dois protagonistas em fuga, regada com doses de humor e sentimentalismo, é utilizada para demonstrar que os artificialismos dos antagonismos criados por instituições militaristas não se sustentam (necessariamente) em termos pessoais. Aos poucos, sob o manto da intolerância politica, descobrem-se afinidades e, até mesmo, um passado trágico similar.

Pelo meio, ainda dá tempo de um relance interessante sobre a fragilidade da inocência infantil através da paixão do garoto Fahed pelo jogador de futebol brasileiro Zico (estamos em 1982) – e que simboliza a irrealidade do conflito ao ter como motivação para a sua fuga o desejo simples de plantar uma oliveira (a tradução de “zaytoun”) na terra de onde vieram os seus pais.

Riklis não abstém-se do comentário às políticas belicistas e truculentas de Margareth Thatcher e Ariel Sharon, os grandes mentores da guerra mas, por outro lado, a sua receita “adoça“ demasiado as coisas e até os militares israelitas/americanos parecem todos com o pai Natal. A opção pela redenção fraterna não ajuda muito, mas não deixa de ser (mais um) testemunho sobre a estupidez das guerras.

O Melhor: Bem realizado e interessante a maior parte do tempo
O Pior: Por vezes demasiado açucarado


Roni Nunes

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