O mundo gira envolto de perspetivas. Depois do fracasso de Amelia (2009), o filme biográfico de Amelia Earhart, a primeira mulher a pilotar um avião sozinho sobre o Oceano Atlântico, protagonizado por Hilary Swank, a realizadora indiana Mira Nair decide então entregar-se a terreno mais delicado ao adaptar a obra literária do escritor paquistanês Mohsin Hamid, The Reluctant Fundamentalist. O filme começa com um sequestro em Lahore, Paquistão, de um professor norte-americano raptado por uma organização terrorista com suspeitas ligações à Al Qaeda. Inicia-se então uma corrida contra o tempo ao encontro deste desaparecido, enquanto o repórter e colunista Bobby Lincoln (Liev Schreiber), um cidadão norte-americano radicado no Paquistão, entrevista Changez Khan (Riz Ahmed), um professor fundamentalista que ensina na mesma Universidade da vítima, e talvez o autor de tal acto hostil. Contudo, enquanto a conversa entre ambos avança, um cenário mais complexo desvenda-se entre eles.
Mesmo sob um certo teor algo moralista, Mira Nair não enverga nenhuma posição política, não julga nem opõe, apenas transforma um conflito duradouro e sem solução do seculo XXI numa teia de perspetivas, sendo que tais pontos de vistas transferem um ritmo algo ilusório para um filme que prometia ser apenas um simples choque cultural. Tal como sucedera com a aclamada obra-prima de Akira Kurosawa, Rashomon, The Reluctant Fundamentalist baseia-se nisso, (obviamente sem atingir o “pico” da obra referida) em abordar um tema, mas nunca a verdade intencional dela, sendo que são várias as vertentes que traçam constantemente um novo rumo no argumento, reduzindo os conflitos globais numa teia de desentendimentos, preconceitos manipuladores, ilusões virais e uma caça a “fundamentalistas” como caçavam bruxas no séc. XIX. Até pensando bem, é de certa forma aceitável afirmar que os mais variados problemas mundiais advém da falta de compreensão entre as diferentes partes.
The Reluctant Fundamentalist funciona até certo ponto como um exercício narrativo, uma visita a um país fragilizado e cicatrizado pelos seus medos, porém o novo filme de Mira Nair está longe de ser perfeito, mas em contraste com as suas limitações cinematográficas, a obra reflete interessantes dilemas para o espectador, fazendo com que estes perdoem as falhas de lógica que agravam nas proximidades do desfecho e Kate Hudson numa prestação completamente dispensável. Um curioso retrato de dois mundos distintos, mas idênticos nos valores e nas batalhas a travar.E até pode não ser um filme fundamental, todavia Mira Nair consegue aqui uma das suas melhores obras recentes.
O melhor – uma verdade frágil que atravessa o argumento, um ponto de vista não muito elaborado, mas curioso.
O pior – Kate Hudson sobretudo

Hugo Gomes

