«The Great Gatsby» (O Grande Gatsby) por Hugo Gomes

(Fotos: Divulgação)

Um dos livros mais conceituados da literatura norte-americana do seculo XX, The Great Gatsby, a aclamada obra-prima do autor F. Scott Fitzgerald, reaparece no grande ecrã numa altura em que os excessos são medidos e contraídos por um sociedade em decadência social e financeira. Na obra literária, o leitor vagueia pelos loucos anos 20 e pela figura máxima do “sonho americano”, Gatsby, um homem concretizado, bilionário e influente, detendo qualquer um ou qualquer coisa, excepto um dos seus verdadeiros motivos pela sua eterna busca pela inserção na “realeza” norte-americana. Jay Gatsby procura acima de tudo a paixão que pretende consumar, sendo que tal “luz” seja inalcançável mesmo perante nos meios ilimitados da figura central do romance. Ao contrário do que se pensa, The Great Gatsby não é uma história romântica da velha guarda, é para além de tudo uma crítica ao cinismo e à desenfreada busca de um sonho americano, os tempos de excessos que levarão à queda do império e a ilusão que se confunde com o quotidiano diário. Mesmo tendo sido publicado pela primeira vez em 1925, F. Scott Fitzgerald conseguiu prever os tempos negros da Grande Depressão que decorreu entre 1929 a 1935. Por essas e por outras, The Great Gatsby deve ser considerado um estudo, superlativo ao seu estatuto de romance.

A quarta adaptação ao grande ecrã é a que possui maior espectacularidade visual, com isso transmitindo uma relação algo alienada das festas memoráveis que Gatsby organiza na sua mansão. Porém, estamos a falar de Baz Luhrmann como realizador, um autor fascinado pelo teatro e acima de tudo pelo espectáculo cénico que transcreve o esplendor de um espectáculo de cabaret na antevisão dos negros dias da Depressão socio-financeira. Tudo se resume a festa, cor (sim, muita cor!), glamour, um luxo técnico em termos de produção, como também a uma plasticidade quase manipuladora que trai até mesmo a própria narrativa. O realizador sobrevalorizado de Moulin Rouge e de Austrália remete a um simples frenesim que em doses recomendáveis poderia servir de alusão ao excesso da época. Contudo, nas exageradas doses  com que nos deparamos em The Great Gatsby assistimos a um “embrulho” sedutor e cativante face a um vazio inócuo de profundidade narrativa e até mesmo interpretativa.

A tour de force perde-se no meio de tanto luxo e excentricidades cinematográficas e tal como a imagem de Gatsby a tentar alcançar a “luz verde”, que marca o seu objetivo de vida, distante das pontas dos seus dedos, o filme de Luhrmann faz exatamente o mesmo na sobriedade fílmica. Um 3D, mesmo que esplendoroso, é desnecessário e sem razão de ser, uma hiperatividade visual que comete desde o suicídio narrativo e uma banda sonora que poucos orgulhosamente terão, tão megalómana como a próprio personagem central, mas em pleno disfuncionamento com o próprio bioma de The Great Gatsby. Mas nem tudo são más noticias, o elenco é sofisticado em comparação às versões anteriores e, obviamente, mesmo que o filme não o permita, conseguimos uma consistência inerente entre elas.

Com claro destaque para Leonardo Di Caprio que regressa à alçada de Burhmann, 17 anos depois de Romeo + Juliet, na interpretação de mais uma grande obra literária, e que resulta num Gatsby sólido, humano e fragilizado, mas talvez deveras simbiótico para a própria imagem do ator. Depois surge Tobey Maguire com pretensões mas sem objetivos concluídos e uma doce Carey Mulligan a tentar minimizar a ambiguidade do seu papel sob um jeito algo virginal. Em suma: o legado de F. Scott Fitzgerald é um incontornável marco literário dos EUA, mas nas “unhas” de Baz Luhrmann é um autêntico Carnaval. Não foi desta que o cinema fez jus ao um dos “Livros” do século XX. Ao invés, temos a uma caricatura à própria Hollywood.

 

O Melhor – O elenco, com Leonardo Di Caprio a brilhar

O Pior – cinema plástico, pretensiosamente técnico e uma barafunda visual que atrapalha a fluidez narrativa de um dos grandes romances do seculo XX


Hugo Gomes

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