Há uma visão simplista do mundo que defende que basta todos querermos para a Paz mundial ser possível, fazendo de nós incompreendidos e do outro incompreensível, reduzindo-o à falta de vontade. Qualquer pessoa que estude Ghandi ou Martin Luther King como deve ser descobre que estas são personalidades com mais matizes do que os “sound bites” e as suas citações nos permitem perceber. Ainda assim, persiste esta ideia, encabeçada na música por esse sucesso musical e fiasco ideológico: “Imagine” de John Lennon. Bem sei, a música foi escrita num contexto específico e não podemos esperar que uma única música mude o mundo, mas persiste em ser utilizada, de forma anacrónica e simplista, como defesa de um ponto de vista irrealista. “A Batalha de Tabatô” é um desses filmes que se baseia no conceito de redenção pela música e de que só é preciso querermos para acabarmos com a guerra.
A convite da filha que vai casar, um homem volta à Guiné de onde fugiu anos antes por ter tomado o lado dos portugueses durante a Guerra Colonial. O filme pretende ter uma moral maior ao opor a música à guerra, mas fá-lo à custa da história e das personagens. Nenhuma das personagens é credível e a história é praticamente não existente, reduzida a alguns planos mais acelerados, a tingir de vermelho a imagem e ao som. Os planos são todos demasiados encenados, com pessoas a falarem num mesmo plano a distâncias diferentes da câmara, sem olhar para ela ou umas às outras e a falarem muito lentamente. Se a ideia era usar um efeito de distanciamento, funciona, mas qual o objetivo?
No entanto parece-me que o mais discordante é a reação ou a falta de reação das personagens a um evento crucial a meio do filme. Para além de levantar muitas dúvidas sobre as representações de género no filme (as mulheres parecem ser descartáveis perante o tema que o filme quer representar), parece estranha a reação contida ou inexistente ao que se passa. Em qualquer obra, por mais antiga que seja, as pessoas reagem à perda de alguém: Gilgamesh fica transtornado pela perda do seu amigo Enkidu a ponto de abandonar todas as suas responsabilidades, Agamémnon envia um milhar de navios para recuperar Helena, etc., mas aqui? Nada. Não estava a pedir uma cena à Se7en, onde Brad Pitt se transtorna e pergunta insistentemente “O que está na caixa?”, mas algo que mostrasse que estamos a ver humanos e não bonecos no ecrã (apesar de, até em animação, Up tem, nos primeiros minutos, um dos mais tristes momentos de perda de sempre). Se uma das cenas fundamentais do filme não funciona, como poderia funcionar tudo o resto?
O Melhor: A fotografia.
O Pior: Personagens unidimensionais, encenado até à beira da morte e com uma mensagem irrealista e anacrónica.

João Miranda

