IndieLisboa 2013: «Danube Hospital» por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

A logística de um hospital moderno é algo inacreditável: se a medicina moderna se encontra neste momento muito mais perto da ficção científica (e da magia, segundo a terceira regra de Arthur C. Clarke), toda a infraestrutura necessária para a sustentar cresceu exponencialmente em complexidade, não só pela escala (agora, como nunca antes, vivem muito mais pessoas juntas), mas também pelas exigências tecnológicas. Depois de apresentar “Abendland” [ler critica] no doclisboa de 2011, Nikolaus Geyrhalter apresenta-nos agora o funcionamento do segundo maior hospital de Vienna.

Mais uma vez, Geyrhalter não faz qualquer entrevista ou dá mais explicações do que dar-nos o nome das salas que filma, o que pode fazer com que, tendo em conta a complexidade do assunto, nem sempre se perceba exactamente o que está a acontecer. Ainda assim, este é um filme muito emocional, esgotante nas imagens da patologia e da morgue, mas também humorístico, como no momento em que a paciente que recebe a Extrema Unção (agora denominada Unção dos enfermos) pede ao padre que se despache. Felizmente, tal como o filme, esses momentos são curtos, mas podem ser muito difíceis (na patologia vemos coisas como um cérebro que acabou de ser tirado de um corpo a ser cortado em fatias).

Não sei se pela minha idade, se pelo tema, vi-me muitas vezes a reflectir sobre a natureza transitória da humanidade e com vontade de contactar as pessoas mais próximas e relembrar-lhes do meu afecto por elas. Não sei se era exactamente esse o propósito do realizador (parece mais interessado em registar tudo o que se passa do que em fazer reflexões), mas creio que uma das funções do cinema pode ser confrontar-nos com a nossa mortalidade e fazer-nos questionar sobre a nossa vida. No funcionamento do hospital a infraestrutura tecnológica mistura-se com a humana e revela tudo o que somos capazes de fazer uns pelos outros (apesar de até este campo estar a ser refém de teorias absurdas de austeridade que nos estão a ser impostas). Um hospital é sem dúvida um dos picos da civilização e a sua infraestrutura fascinante.

O Melhor: A quasi-magia do funcionamento de um hospital e da medicina moderna.
O Pior: A falta de contextos.


João Miranda

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