IndieLisboa 2013: «Eles Voltam» por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

Depois de uma discussão sem sentido, daquelas típicas entre irmãos adolescentes, dois irmãos, Cris e Peu, são abandonados à beira da estrada. A sua descrença inicial faz com que continuem a discussão que tinham dentro do carro, confiantes no retorno dos pais, mas o tempo passa e não há sinal deles. Será que os abandonaram mesmo? Sozinhos, terão de decidir como agir para ultrapassar esta situação.

Este não é uma daquelas histórias moralistas em que irmãos abandonados se juntam e aprendem a trabalhar em conjunto e a ultrapassar as suas diferenças pessoais. O irmão decide procurar um posto de abastecimento que tem a certeza que está perto e abandona Cris no local onde os pais antes o fizeram a eles para que, caso voltem, a possam encontrar. Também não é uma daquelas histórias em que terão de passar por provações e situações horríveis. Depois de uma noite sozinha, Cris procura forma de chegar a casa e vai encontrando várias pessoas que a vão ajudando. Também não é uma daquelas histórias irrealistas em que todas as pessoas com que se cruza são boazinhas e estão dispostas a ajudar. Este é um retrato das diferenças do Brasil, das pessoas pobres que tentam sobreviver, do interior, da vida dos pobres e dos ricos perto da Praia, da apatia, das construções mediáticas que temos de ultrapassar quando encontramos pessoas pela frente.

George Grebner inventou o termo “Mean World Syndrome” para descrever o fenómeno de sentirmos o mundo como mais violento e ameaçador do que na realidade é por causa dos conteúdos violentos apresentados pelos media. É devido a este síndroma que estamos sempre à espera de que algo mau aconteça, mas, na realidade, se nem todas as pessoas são boas, nem todas são más: a maioria é apenas egoísta e estúpida. “Eles Voltam” é um daqueles filmes revigorantes que evita clichés e saídas fáceis, construindo situações sobre as nossas expetativas e negando-as, levando-nos a refletir sobre elas.

O Melhor: O jogar com as nossas expectativas e confrontá-las, sem violência ou otimismo irrealista.
O Pior: Há algumas cenas que parecem contribuir pouco para o filme.


João Miranda

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