IndieLisboa 2013: «Ma Belle Gosse» por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

Como escrever uma crítica sobre um filme em que não se passa nada? Se costumo tentar evitar qualquer spoiler, neste caso só o descrever o contexto é contar a história toda do filme. Maden, uma rapariga de 17 anos passa as férias com os seus meio-irmãos e o pai numa ilha onde também se encontra uma prisão. Só com o conhecimento do seu irmão Vadim, Maden tem trocado há algum tempo cartas com um presidiário que se encontra nessa prisão, mas essas cartas são descobertas, por acaso, pelas suas irmãs. E pronto, é isto. Não são exploradas as relações familiares ou as tensões que podem existir entre famílias “partilhadas”, nem a descoberta das cartas. Se Maden tenta visitar o seu correspondente, não o consegue nunca e o filme não parece interessado nisso.

O que quer então “Ma Belle Gosse”? Mais do que alguma forma de narrativa, o filme parece querer explorar as lembranças de infância do Verão, dos dias de praia e de aventura que pareciam nunca acabar, da relação com irmãos e primos, completamente separada da dos adultos, de um mundo por descobrir e da calma, misto da indolência do calor e da perceção dos dias sem fim. Se “Ma Belle Gosse” faz algo bem, é reativar essas lembranças. Até o cheiro da maresia e das plantas que se partem e desfazem nos dedos à beira dos carreiros percorridos parecem sentir-se, o vento fresco do fim da tarde nos cabelos e a areia entre os dedos dos pés. Um filme mais sensual que narrativo, “Ma Belle Gosse” poderá não agradar a todos racionalmente, mas há lembranças emocionais, por vezes de alturas em que não sabíamos ainda exprimi-las de forma verbal, que nos assaltam e nos provocam alguma nostalgia de anos passados e urgência de que chegue o Verão.

O Melhor: A sensualidade nostálgica.
O Pior: A falta de narrativa.


João Miranda

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