«Shirley, Visions of Reality» por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

Edward Hopper é um pintor americano polémico: em plena desconstrução da representação na Arte, Hopper persistia em quadros representativos, com personagens retratadas sob fortes luzes, com uma forte influência do cinema noir. Se Clement Greenberg, o crítico de Arte, lhe chamou um mau pintor, a sua reputação tem crescido com o passar dos anos e muitas vezes são referenciados quadros seus na cultura popular (“Watchmen”, “Simpsons”, etc). Sob este signo representacional e esta estética cinematográfica, Gustav Deutsch (ironicamente austríaco) escolhe 13 quadros de Hopper e filma-os usando como fio condutor Shirley. “Shirley” era o nome que a família do pintor dava à personagem do quadro “Office at Night”, pintado em 1940, e que Deutsch desenvolve como uma personagem feminina que, para além de atravessar os quadros, atravessa também a história norte americana do século XX.

Partindo dos enquadramentos definidos pelo pintor, o filme é constituído por 13 planos estáticos onde personagens interagem e/ou se ouvem, em voz off, os pensamentos de Shirley. Sempre antecedidos de um enquadramento dado por um falso noticiário de rádio, as cenas pretendem ao mesmo tempo contar uma história individual (uma atriz casada com um fotojornalista tem de lidar com a sua morte, refugia-se no campo e eventualmente emigra para a Europa), uma história da mulher nos Estados Unidos durante as quatro décadas representadas, fazer uma reflexão sobre o cinema e encenar o quadro de Hopper (durante a cena, as personagens assumem as posições como retratadas no quadro original).

É um filme muito ambicioso e não se pode dizer que falhe por isso. Consegue até a maior parte do que se propõe (apesar da reflexão sobre o cinema se ficar meramente por uma análise platónica pouco imaginativa), mas a escolha dos planos fixos e o voz-off tornam-no num filme lento e por vezes aborrecido. O problema é que as exigências da luz de Hopper não permitem grandes movimentos (há quem acuse a sua pintura de rigidez). Ainda assim, o esforço de trazer para o cinema os quadros deste pintor resultam essencialmente pelo trabalho de Hanna Schimek (Directora Artística) e de Deutsch.

Para os curiosos ficam alguns sites sobre o filme que podem ajudar a perceber como foi feito:

  • Site de Gustav Deutsch, que inclui uma declaração sua sobre o filme;
  • Site da directora artística, onde se podem ver alguns dos trabalhos de recriação das pinturas;
  • Blog onde as recriações do filme são comparadas com os quadros originais, bem como imagens de instalações que Deutsch fez em algumas exposições


João Miranda

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