IndieLisboa 2013: «Gimme the Loot» por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

Nova Iorque é a cidade das grandes desigualdades. Se há bairros em que Woody Allen e as personagens de “Sexo e a Cidade” têm as suas aventuras, há também as “Mean Streets” onde Travis Bickle se cruza com o “Bad Lieutenant” e a Justiça parece estar ainda mais longe do que o Sonho Americano. Pelo meio, temos a Nova Iorque das tensões raciais de Spike Lee e a das novas gerações que a tentam navegar em “Kids” (cujo escritor, Harmony Korine, apresenta neste festival o seu último filme “Spring Breakers”). “Gimme the Loot” consegue percorrer estas várias visões da cidade através da história de Sophia e Malcolm que, fartos de que lhes estraguem os graffiti que fazem, procuram fazer um acto mítico de “bombing” que os ponha na História. Nas primeiras cenas do filme uma antiga entrevista estabelece o MacGuffin do filme: no estádio dos Mets há uma maçã de plástico que sai das bancadas sempre que há um home run e que há décadas que é objecto de tentativas de “bombardeamento” por parte de “escritores”. Consegui-lo seria uma vitória para Sophia e Malcolm. É um MacGuffin, porque não é, na realidade, importante para a história, apenas como motor de uma série de aventuras em que os dois se metem para encontrar o dinheiro necessário para pagar a um dos seguranças para os deixar entrar para o estádio.

Na realidade o filme é mesmo sobre a relação entre os dois. E é aí que está a sua força. Amorosa sem ser sexual, é estimulante ver uma relação de amizade e cumplicidade tão profunda, ao mesmo tempo que os dois tentam navegar realidades desfavoráveis. O humor ajuda a que o filme não caia no drama, enquanto que as imagens e as situações vão demonstrando a desigualdade de uma cidade que pode ser tão feia como bonita. Sem cair na exploração de “Kids”, “Gimme the Loot” consegue dar-nos personagens completas, com ambições, sonhos e limitações, que tentam agir o melhor que sabem num contexto distorcido, onde o roubo de um telemóvel pode reparar o roubo de uma bicicleta e o roubo de jóias pode reparar a desilusão do roubo de beijos. Mas não se fique a pensar que o crime é de alguma forma glorificado: existe de forma ubíqua à volta das personagens, mas sempre que estas tentam cometê-lo acabam por não consegui-lo por diversos motivos, por vezes hilariantes, por vezes ingénuos, e a sombra da pena em que incorrem se forem apanhados ameaça-os de forma igualmente banal.

Outra agradável surpresa é a banda sonora: fugindo ao rap estereotípico de alguns destes filmes, é o soul, jazz e gospel que nos acompanham pelo filme. 

A primeira longa-metragem do realizador Adam Leon, “Gimme the Loot” mostra o potencial deste realizador e dos dois protagonistas e já ganhou o Grande Prémio do Júri no SXSW o ano passado, tendo ganho contrato de distribuição na semana seguinte. Não sei se terá distribuição em Portugal, mas tenho ideia de que não será a última vez que vamos ouvir falar deste realizador.

O Melhor: A relação central; as representações principais.
O Pior: Pode ser acusado de ter pouca história, mas será que precisa?


João Miranda

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