Todas as cidades têm bairros assim. Por vezes mais do que um. Em Setúbal, o Bairro da Bela Vista é um desses bairros. Um bairro em que a criminalidade e o racismo fazem parte da infraestrutura da comunidade, como o cimento armado e os graffitis na parede. Pedro Pinho, cujo filme “Bab Sebta” foi premiado no DocLisboa 2008, decidiu filmar, sem juízos de valor e de forma quase documental, alguns dias de verão de jovens deste bairro de Setúbal. Nesses dias, mesmo no fim da escola, vemos não-atores, residentes da Bela Vista, a trabalhar, a divertirem-se, a tentarem definir-se num mundo que não parece ter lugar para eles.
A escolha de filmar a preto e branco parece querer reduzir a degradação do bairro a texturas e as cores das peles a matizes de cinzento, mas há o risco de estetizar a alienação (e reduzir à passividade qualquer vontade de mudar) ou de perder a riqueza étnica das várias origens dos habitantes (o que pode ser ainda mais problemático já que o realizador é um homem branco e é uma visão simplista para uma identidade complexa). Mas com o centro tão focado na adolescência e na vitalidade do grupo, percebe-se que este filme não tem qualquer pretensão política, ainda que consiga mostrar bem a banalidade do racismo da nossa cultura.
O problema com o filme é que pretende celebrar a juventude e a vontade de viver destes jovens de um bairro desfavorecido, mas a sua posição de não julgamento faz com que esta celebração acabe por englobar atos de criminalidade. Sim, às tantas fala-se em alguém que foi preso, mas não se vê sombra da polícia e qualquer figura de autoridade (tanto a professora, como o segurança no hotel) é meramente vítima de chacota . Pior que isso, num dos momentos importantes do filme, um ato de vandalismo é efetuado de forma vingativa e egoísta, sem qualquer sinal de consequências reais, quer na comunidade, quer para quem o cometeu. Com que ideia ficam os miúdos de contextos sociais semelhantes quando vêem este filme? É possível filmar um filme e ignorar o seu impato social?
O Melhor: O filme consegue capturar a vontade de viver dos adolescentes.
O Pior: Acaba por celebrar a criminalidade de forma inconsciente.

João Miranda

