IndieLisboa’13: “Le Grand Soir” por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

Já muitos foram os autores que argumentaram que a base da sociedade são as relações de confiança estabelecidas entre as pessoas. Já imaginaram a dificuldade que seria algo tão simples como sair à rua se não pudéssemos confiar nas pessoas à nossa volta? Se todas as pessoas com que nos cruzássemos estivessem prontas a atacar, a subjugar, a definir relações de poder físico? A subcultura punk aparece no final dos anos 70 com a crise económica e com a desilusão da mudança que a geração anterior anunciou, mas nunca aconteceu. Num mundo em que a ordem estabelecida parece estar contra a juventude, aparecem sempre movimentos que põem em causa essa própria ordem, atacando principalmente essa confiança que está na sua base, mas, se os beatniks e a geração de 68 pareciam ter uma base ideológica melhor definida, o punk nunca conseguiu definir-se nesse registo e acabou por ficar-se por uma estética inventada pelo Malcom McLaren e pela sua, na altura, namorada Vivienne Westwood (inventada para poderem vender mais roupa na sua loja) e um mal-estar confrontacional. Baseados no conceito romântico de autenticidade, acabam por dar peso ao argumento de Joseph Heath que a contracultura faz parte do ciclo de consumo, em vez de criar um discurso viável de crítica e de transformação.

Em “Le Grand Soir”, Not é um punk cujo pai tem um restaurante numa daquelas zonas comerciais suburbanas. Perto dos seus 40 anos, Not é o contrário de seu irmão, um homem estabelecido, com um emprego, mulher e uma filha. Sendo mais um filme dos iconoclastas Gustave de Kervern e Benoît Delépine (que nos trouxeram “Aaltra”, “Louise-Michel” e Mammuth”), é óbvio que esta oposição será posta em causa, bem como toda as relações de confiança que permitem existir estes não-lugares, centros de alienação suburbana, primeiro por Not e depois pela queda e transformação de seu irmão, numa série de situações hilariantes.

O filme contém, curiosamente, uma espécie de crítica ao próprio movimento punk, no momento em que os dois irmãos, algures no campo, se cruzam com alguém que se quer matar. Se Not não se quer envolver nesta situação, o seu irmão é incapaz de não o fazer e tenta convencer o suicida que tudo melhora, mas o seu discurso é desviado por Not numa apreciação estética da forma de suicídio que a define como “não-Punk”. Algum tempo à frente a mesma pessoa surge enforcada num carrossel. Cómico? Sim. Punk? Talvez. Mas o que mudou?

A figura anti-autoritária que põe em causa a ordem é essencial a qualquer sociedade. O papel do bobo da corte ou o do “village idiot” (que os Monty Python imortalizaram na sua série), sempre existiu e, de forma ridícula ou ameaçadora, serve para nos levar a refletir sobre o que somos e como agimos. “Le Grand Soir” consegue celebrar a cultura Punk, sem conseguir, no entanto, ser tão iconoclasta e irreverente como “Louise-Michel”, ficando-se mais por um filme divertido do que verdadeiramente transformador. Talvez algum punk de meia-idade se sinta justificado ao vê-lo…

O Melhor: O Humor.
O Pior: Não é tão arriscado nem tão profundo como filmes anteriores.


João Miranda

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