“Graceland” de Paul Simon é uma das obras-primas da música moderna. Editado em 1987, o álbum é uma interpretação de Paul Simon de várias músicas que conhecia de artistas sul-africanos. Várias foram as vezes que ouvi este álbum e muitas são as influências que este teve na música e na cultura ocidental. Por ocasião do 25º aniversário da sua edição, Joe Berlinger (que já realizou outros documentários musicais, como o celebrado “Metallica: Some Kind of Monster), pegou em todo o material de arquivo existente sobre o processo de gravação e da sua apresentação ao mundo e tenta celebrar esta obra-prima.
Quando Paul Simon gravou “Graceland” quebrou a sanções impostas à Africa do Sul, estabelecidas contra o regime do Apartheid. Na altura houve algumas consequências, mas a qualidade do álbum nunca foi posta em causa, nem o mérito dos músicos sul-africanos. Só que, ou o próprio Simon ou o realizador Berlinger, parecem não ter esquecido isso e, em vez da celebração da música que este filme devia ter sido, temos uma falsa questão entre a autonomia da música em relação à política e, mais que um pedido de desculpas, uma tentativa de exoneração do músico por ter quebrado as sanções.
Este filme poderia ter sido quase tão bom como o álbum original, mas resolveu argumentar de forma errada, encenando, anos depois do Apartheid ter acabado, encontros de Simon com os elementos do ANC (Congresso Nacional Africano), numa tentativa de argumentar que a música não está relacionada com a política, que tudo foi perdoado e que Simon até é um “gajo bonzinho”. Chega-se ao cúmulo, nas entrevistas apresentadas, de ser referir que “Graceland” terá ajudado a por fim ao Apartheid! Foram as próprias sanções que Simon quebrou que acabaram por pôr termo ao Apartheid. Se o facto de Simon ter gravado o álbum em pleno Apartheid foi um faux pas (damos-lhe o benefício da dúvida), o desenvolver este documentário, que deveria ter sido apenas sobre a música (mesmo que devesse referir o contexto político), numa tentativa de exoneração desse faux pas é de um cinismo e de um amargo de boca inacreditável. O que devia ser um momento de orgulho, ficou-se por uma demonstração de culpa.
Aparte da questão política, outro ponto fraco do documentário é a incapacidade de mostrar a influência deste álbum (apenas vemos os Vampire Weekend a confessarem esta influência direta) e as várias entrevistas a celebridades que nada têm a ver com música ou com o tema do filme (Oprah, Whoopi Goldberg, Paul McCartney, …) que mais parecem o name dropping inepto de um qualquer wannabe do que de um músico realizado.
O Melhor: A música, a quantidade de imagens de arquivo, o reencontro dos músicos.
O Pior: O querer levantar o argumento de que Simon deve ser de alguma forma exonerado pelo que foi um erro óbvio.

João Miranda

