IndieLisboa’13: “Public Hearing” por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

 

A Democracia é algo sensível e o processo democrático perante os grandes interesses económicos nem sempre sai bem. Numa pequena cidade rural dos Estados Unidos houve uma audiência pública para registar as opiniões dos habitantes em relação a um pedido de expansão de um já existente Walmart. A audiência foi efetuada no âmbito de registar as preocupações quanto ao impacto ambiental desta expansão, mas, perante um tema tão divisivo como as consequências económicas e as documentadas faltas de ética por parte da Walmart, muitos outros foram os temas discutidos.

O texto transcrito desta audiência pública é reencenado em “Public Hearing”, um filme a preto-e-branco constituído quase exclusivamente por close ups e que tenta simular quase em tempo real o que se terá passado nessa sessão. Tecnicamente é um filme muito cansativo, o preto e branco muito marcado e os planos sempre demasiado próximos são obviamente uma posição de crítica, mas que não resulta visualmente. A escolha de simular o tempo real da audiência também não funciona: um intervalo registado nas atas desta a traduzir-se em cinco minutos de um ecrã branco com “Aqui aconteceu um intervalo” enquanto música toca. O constante feedback do microfone e os constantes tiques dos actores (estalar de lábios, por canetas na boca enquanto falam, …) também irrita mais do que contribui para a “autenticidade” do filme.

O processo democrático está constantemente a ser posto em causa e por vezes estas audiências públicas parecem ser meras formalidades que têm de ser encenadas antes de se prosseguir com o que já foi decidido, mas construir um filme tão maniqueísta e irónico como este não funciona nem a nível técnico nem a nível político. Algumas pessoas abandonaram a sala a meio da sessão e durante o “intervalo” os comentários não se continham. Antes um documentário sobre o Walmart ou sobre a pressão dos grandes interesses económicos sobre os interesses comunitários. Isto que nos foi apresentado, não se tolera.

O Melhor: Algumas das participações e das dúvidas levantadas, mas aí não há mérito para o filme, mas para a audiência original.
O Pior: O preto-e-branco, os close ups, o feedback sonoro constante, os tiques, as pequenas encenações visuais, o “tempo real”, algumas representações, a ironia, a falta de consciência política, etc…


João Miranda

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