A relação entre o cinema independente e o dito de Hollywood é algo estranha. Se, por um lado, o primeiro se define como uma alternativa ao segundo ou mesmo por oposição (veja-se o tema do festival este ano: “Hollywood está a ficar sem ideias“), por outro lado partilha não só a mesma tecnologia, como toda uma base semiótica construída por anos de exposição ao segundo. Veja-se o início de “I Used to be Darker”: uma rapariga repõe stock numa grande superfície. Na cena seguinte entra em casa com um saco, de onde tira um pacote que abre e dirige-se à casa-de-banho. Neste ponto já nem era necessário o confronto com um rapaz numa festa na cena que se segue. Está explicada, apenas com imagens, a situação desta rapariga. Esta economia só é possível pela utilização de tropos estabelecidos por anos de cinema “de Hollywood”. Não se pode dizer, então, que o cinema independente o seja completamente: há uma óbvia relação entre os dois e a independência parece ter a ver mais com os meios de produção do que com um estilo estético. Dito isto, essa independência das grandes produtoras traduz-se muitas vezes em experiências a nível de estilos e de conteúdos, demasiado heterógeneas para fazer um estilo próprio, mas que com a repetição, acabam por definir tipos de cinema independente, como por exemplo o filme cheio de personagens quirky (pense-se na Miranda July ou no Noah Baumbach), o “mumblecore” (Lynn Shelton) ou o filme mais experimental que se define como anti-narrativo (Kelly Reichard).
“I Used to be Darker” é um desses filmes “independentes” que recusa narrativas tradicionais ou temas “maiores”. Taryn descobre que está grávida e procura refúgio na casa dos seus tios, mas quando chega descobre que estes estão em processo de separação. Mas o filme não é sobre os problemas em que as pessoas se encontram, antes foca-se nas reacções de todos e num tomar de consciência dos problemas que estes existem. Na declaração dos escritores no site do filme pode ler-se que o pretendido é focar-se no processo de separação, mas mesmo esse foco fica-se pela rama, procurando-se na música a profundidade que falta ao script.
A música é um elemento interessante no filme. Sempre presente (quase parece um musical), ajuda a construir uma paisagem emocional. Para isso, Matthew Porterfield convidou para protagonistas músicos estabelecidos e explora a cena musical de Baltimore. Se bem que se pode dizer que não é de todo intrusiva, o seu uso interrompe a fluidez da narrativa, procurando fornecer a emoção que nem sempre se encontra no diálogo.
Quando saí da sessão em que foi exibido este filme, sai dividido: se por um lado é o tipo de filmes que me devia agradar pela sensibilidade com que aborda os temas e pela recusa de clichés, por outro lado é absolutamente mediano. Por vezes, há filmes que nos parecem à primeira vista medianos, mas que nos vão perseguindo nos dias seguintes e percebemos que debaixo dessa primeira aparência há um grande filme. Os filmes de Alexander Payne são assim, enganosamente simples. Pensei que a noite me pudesse trazer alguma clarividência quanto a este filme, mas em vez de me sentir perseguido pelo que vi, apenas o esqueci.
O Melhor: A música, a fotografia.
O Pior: A Mediania.

João Miranda

