IndieLisboa’13: «The Secret Disco Revolution» por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

O Disco é um fenómeno cultural polémico: se muitas vezes foi acusado de ser uma corrente egoísta e superficial, também outras tantas lhe atribuíram qualidades de movimento político. “The Secret Disco Revolution” parece defender esta última corrente. Baseado nas teorias de Alice Echols (crítica cultural que foi DJ e escreveu “Hot Stuff, Disco And The Remaking Of American Culture”) e de Peter Shapiro (um jornalista de música que já trabalhou para a “Spin”, “Vibe” e “Uncut” e autor de “The Secret History of Disco: Turn The beat around”), Jamie Kastner, o realizador, entrevista estes autores, bem como produtores, músicos e elementos da cultura noturna que participaram neste movimento, na tentativa de argumentar que o Disco foi na realidade um movimento de libertação racial, feminista e homossexual, enquanto conta ao mesmo tempo a sua história.

O tom escolhido para o filme é estranho: recusando o formato clássico de documentário (ainda que haja muitas “talking heads”), Kastner preferiu criar um conceito fantasioso em que o Disco é na realidade algo que foi projetado por entidades desconhecidas. Para isso filmou várias cenas com representantes de cada uma das “minorias” que diz liberadas pelo movimento a planearem e a implementarem um ato de engenharia social inacreditável num sótão algures, em rituais com mais afinidades com a alquimia do que com as representações normalmente associadas a grupos assim. Não funciona, mas é facilmente ignorável.

O que não é tão facilmente ignorável são os vários buracos na narrativa. Há uma pretensa ligação do Disco com movimentos de resistência cultural à ocupação nazi em França, mas esta não é explicada, nem o seu percurso até aos Estados Unidos nos anos 70. Este e outros argumentos são apresentados como óbvios ou suficientes, quando não são nenhuma dessas coisas. Com pouco menos de hora e meia, são compreensíveis as escolhas que tiveram de ser feitas, mas teria sido preferível cortar estes factos incompletos a apresentá-los assim.

Apesar destes defeitos, “The Secret Disco Revolution” não é um mau filme. Com um muito bom uso de material de arquivo e uma grande banda sonora, consegue explicar as origens sociais do movimento, o seu desenvolvimento e as consequências visíveis na cultura atual. Quase que consegue argumentar que o Disco é um movimento político consciente, mas esse argumento é posto em causa pelos próprios músicos e produtores. O que nos leva a perguntar: é possível haver uma revolução político-cultural em que os seus agentes ignorem participar nela? Essa é a pergunta que o filme consegue fazer com sucesso, por isso dizia no início que o filme parece apenas defender a natureza política do Disco. Há um momento crucial em que entrevistas com o produtor Henri Belolo e com o grupo que criou, os Village People, se entrecruzam e nos fazem questionar toda a premissa.

Com os seus defeitos, este é um filme mais interessante para discutir a política e natureza dos fenómenos culturais do que para aprender o que foi o Disco. Para isso há sempre o “The Joy of Disco”, uma produção da BBC, disponível no youtube para os mais interesados ().

O Melhor: O confronto entre as teorias culturais e as ideias de quem fez o Disco.
O Pior: O conceito fantasioso usado para explorar o tema. 


João Miranda

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