Passageiro é de facto a palavra que melhor se aplica a um filme que desaparece da mente do espectador muito pouco tempo depois da projeção – e quando não o faz é pelas piores razões. Quase todo passado no interior de um avião – que anda às voltas sobre o céu de Madrid devido à uma avaria que o impede de seguir para o destino – o filme vai mostrando as histórias de vários dos seus passageiros – todas situando-se entre o “trágico”, o cómico e os problemas de natureza sexual. Não menos importantes na galeria de personagens são os cinco membros da tripulação – três comissários de bordo e dois pilotos.
O grande cineasta espanhol Pedro Almodóvar baixa claramente a fasquia para este filme, que se pretende uma comédia ligeira com alguns subtis comentários políticos à mistura. O problema é que já lá vai o tempo em que criar humor com os trejeitos homossexuais era algo de inventivo – e talvez a sua grande tour de force no cinema tenha sido o longínquo “Gaiola das Malucas”, de Edouard Molinaro, de 1978 (teve um remake com Robin Williams em 1996), que fez um enorme sucesso na altura ao exibir os maneirismos dos gays de uma maneira cómica. A partir daí, isto foi algo explorado à exaustão até nos mais popularuchos programas televisivos.
Além do mais, normalmente estas gags fazem parte de um ponto qualquer de um filme, mas o cineasta espanhol, não satisfeito em enveredar por uma fórmula tão gasta, ainda o coloca como ponto central do humor que buscou para “Amantes Passageiros”. Com uma comicidade sofrível, resulta daí uma das cenas mais constrangedoras da carreira de Almodóvar – um momento musical em que os comissários de bordo, três estarolas gays, fazem “um número” ao som de “disco music”.
No mais, o calão abundante para piadas de fundo sexual não ajudam este filme a levantar voo – onde se salva alguma envolvência das historietas dos passageiros e uns poucos momentos cómicos.
O Melhor: algumas histórias dos passageiros
O Pior: o mais que degastado estilo de humor adotado

Roni Nunes

