Os cineastas brasileiros descobriram a favela nos anos 60 com a sua famosa geração revolucionária e, quatro décadas depois, “Cidade de Deus” (2002), obra-prima de Fernando Meirelles, reabria o interesse pelo local, pelas suas temáticas e pelos extratos sociais aí predominantes, dando o tom de tudo que se faria a partir dali.
Mas a enorme distância temporal traduzia-se num enfoque, pelos novos cineastas, muito mais realista e menos “antropológico” do que o trabalho da geração do Cinema Novo. Ao mesmo tempo trazia consigo uma linguagem mais visceral que acompanhava a evolução espetacular (retratada na obra de Meirelles) da própria favela – que de ocupações clandestinas de imigrantes do Nordeste brasileiro, tornaram-se gigantescas aglomerações populacionais com leis muito próprias.
Jefferson De, grosso modo uma espécie de Spike Lee brasileiro (do qual é fã confesso e, também como ele, é negro) foi mais um a voltar à temática, que de resto não fica muito longe da própria série televisiva originada da obra de Meirelles, “Cidade dos Homens”. No centro da abordagem, o quotidiano da favela, representada por uma caracterização muito credível dos seus personagens e seus dramas.
E é esse o ponto mais forte deste “Bróder”, apresentado no Festival de Berlim de 2010 e vencedor de diversos prémios no Brasil. A história passa-se em 24 horas e centra-se num dia cheio de acontecimentos na vida de Macú (Caio Blat), um jovem morador de um violento bairro da periferia de São Paulo. Neste que é o dia do seu aniversário, ele recebe a visita de seus dois grandes amigos de infância que conseguiram sair do “gueto”.
De um lado, Pibe (Sílvio Guindane), que tornou-se um corretor de imóveis e vive num apartamento minúsculo que dá para duas barulhentas estradas circulares da cidade; do outro, mais inspirador, está o jogador Jaiminho (Jonathan Haagensen), uma estrela do futebol mundial a jogar em Espanha e aguardar a convocatória para a seleção brasileira. Ao mesmo tempo, Macú é pressionado por dois criminosos com os quais havia concordado em participar de um sequestro.
Embora sem trazer uma abordagem nova, “Bróder” consegue, nos seus melhores momentos, reproduzir o frenesim de uma ação passada num único dia, contando uma história repleta de tensão onde a violência intrínseca à favela (raramente mostrada de forma explícita) é contrabalançada por valores como lealdade, amizade e solidariedade. A panóplia de personagens característicos nem esquece as igrejas evangélicas como fontes de consolo às quais se apegam populações expostas a um quotidiano difícil.
Por outro lado, como forma de sublinhar a camaradagem e os laços entre os personagens, o filme exagera um pouco nas relações de convívio – com seus “manos”, cumprimentos e eventos “sociais” diversos – a quebrarem o ritmo do filme.
O Melhor: a autenticidade dos personagens e do retrato
O Pior: demasiados tempos em que o conflito se perde em “socializações”

Roni Nunes

