As histórias rotineiras de perseguições de longo curso promovidas pelo FBI ganham aqui uma dimensão humana, política, histórica e filosófica. Por outras palavras, “As Regras do Silêncio” é um filme muito acima da banalidade. Um pouco ao modo de Clint Eastwood, o realizador Robert Redford lida com a idade, a nostalgia e as mudanças dos tempos trazendo histórias contadas à forma clássica com poesia e emoção.
Jim Grant (Robert Redford), um advogado que vive pacificamente com a sua filha de onze anos Isabel (Jackie Evancho), é supostamente desmascarado por um intrometido jornalista de um periódico local (Shia LaBeouf). Pondo-se em fuga com o objetivo de limpar o seu nome e dar um futuro à filha, vai reconstruindo os laços com um passado que tinha sido bem-sucedido em apagar até ali – mas que retorna de forma dramática e ameaça a sua vida presente.
Esse ponto de partida serve para o argumento ir desconstruindo uma complexa teia de segredos que envolve um passado oculto e enigmático. Ao mesmo tempo que é bem-sucedido ao criar uma história cheia de mistérios e lembranças dolorosas, a obra concentra-se naquele que é o seu ponto fulcral – as alterações na sociedade no que se refere à perceção da revolução social.
Isto porque o ponto-chave do passado dos personagens é o envolvimento com a organização dos Weathermen, cuja ação revolucionária (com ocasionais atos violentos) era justificada por uma “declaração de guerra” ao governo militarista de Nixon. Esta evolução, abordada num diálogo fundamental entre o foragido Grant e um ex-militante agora professor universitário (Richard Jenkins) remete claramente para uma sobreposição do individual, do moral e do sentimental sobre a lógica de guerrilha.
É certo que, dentro deste debate, precisamente o tema da cena central do filme – a conversa entre Grant e uma ex-partner vivida por Julie Christie (que depois da nomeação ao Oscar, em 2008, continua a envelhecer em grande forma), Redford não vai muito além do registo destas mudanças. Por outras palavras, fica-se imerso na lógica do “pai de família” versus o revolucionário. De qualquer forma, “As Regras do Silêncio” contribui enormemente contra a acefalia no cinema, provando que é possível fazer entretenimento com inteligência.
O Melhor: diversão com inteligência
O Pior: o alcance relativo do debate proposto

Roni Nunes

