“The Awakening” (O Despertar) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)
História de fantasmas em moldes clássicos, onde uma mulher independente, corajosa, solitária e reprimida (Florence Cathcart, vivida por Rebecca Hall) do início do século XX circula por uma Londres traumatizada pela 1ª Guerra Mundial a desbaratar falcatruas “espiritualistas”. Com o seu livrinho científico debaixo do braço e plenamente convicta de que não existe vida após a morte (e, consequentemente, visitas do além), ela vai resolver o mistério num colégio de meninos no interior, onde um deles apareceu morto e os outros juram que anda por lá um ser do outro mundo. 
 
Na sequência de uma longa tradição de filmes de terror “rural” da Grã-Bretanha, mas também com ecos de “O Sexto Sentido” e “Os Outros”, o realizador/co-argumentista britânico Nick Murphy deixa claro desde o início, com o título e a cena de abertura (um olho que se abre), que trata-se de uma trajetória interior, utilizando uma metáfora não muito subtil, mas eficiente, da maquete do castelo onde a personagem principal vê cenas da sua própria vida.  
 
É enquanto Murphy passeia a sua câmara pelas sombrias e bucólicas paisagens do interior, com o seu castelo transformado em escola, que o filme vai inserindo serenamente as peças do mundo interior de Florence. Apesar de mais lenta, é curiosamente nesta parte que a condução do enredo acaba por ser mais feliz – quando os traumas dos quais é possível suspeitar apenas transitam na superfície. Esta construção tem seu ápice numa cena plena de sensualidade e mistério – onde Florence toma banho e imagina estar a ser espiada. Rebecca Hall é uma excelente atriz e conduz com emoção e eficácia uma personagem cheia de segredos e cujas todas as suas bases estão a ser postas em causa.
 
Quando estas ambiguidades fazem o filme tomar o rumo das histórias de delírio e loucura e a protagonista mistura ficção com realidade, é quando ele perde um tanto de interesse – culminando com uma tola opção por uma estranha interação entre vivos e mortos que estraga um pouco o clímax. Uma escolha tanto ou mais tonta porque a explicação dada por os acontecimentos era dramática e plausível o suficiente para compor as coisas. Com o despertar interior ou não, a ciência e a racionalidade são sempre as grandes vítimas dos contos de fantasmas. O que até se compreende, pois do contrário não se poderiam contar histórias sobre eles…
 
O Melhor: Rebecca Hall e, apesar de tudo, é uma boa história de fantasmas
O Pior: nada que já não se tenha visto muitas vezes
 
Roni Nunes

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