Ninguém foi mais longe em dissecar a podridão moral e comportamental de uma determinada sociedade (particularmente a da sua elite) do que Nélson Rodrigues, cujas peças (surgidas, principalmente, nos anos 50 e 60 do século passado) estão na base de quase todo o cinema importante feito no Brasil entre os anos 70 e 80. Para isso utilizou de histórias fortes, surpreendentes e completamente amorais para os seus “álbuns de família”. No caso deste seu trabalho de 1962, ele já teve uma adaptação anterior, de 1981 – que tinha Vera Fischer e Lucélia Santos como protagonistas.
“Bonitinha, mas Ordinária” narra a história do milionário Werneck (Gracindo Júnior), que paga a um empregado seu, Edgar (João Miguel), para casar com a sua filha adolescente, Maria Cecília (Letícia Colin) – traumatizada depois de ter sido violada por cinco homens. Um relutante Edgar, no entanto, mesmo depois de ser parcialmente convencido pelo genro de Werneck, Peixoto (León Goes), insiste em manter alguma integridade e “não se vender”.
Neste baile de máscaras onde ninguém é o que parece ser, os maiores dilemas ficam para ele que, se por um lado anda com uma foto do pai no bolso (símbolo do vínculo a algum tipo de integridade), por outro é “consumido por dentro” por uma frase de Otto Lara Resende, “o mineiro só é solidário no câncer” – alusão à selvageria social e que para ele justifica a sua ambição. Ao mesmo tempo, acredita que pode se apaixonar pela Lolita incandescente Cecília, enquanto corteja a doce e inocente Ritinha (Leandra Leal) – circulando com um cheque de 5 milhões de Reais no bolso que não tem coragem nem para rasgar, nem para depositar.
Mas isto é só a ponta do iceberg da história original, onde o seu retrato social perambula entre o sórdido, o dramático e o inusitado (mas nunca excessivo) e cuja força não é captada de todo nesta adaptação. O realizador Moacyr Góes, vindo de uns tantos filmes comerciais, se não tem o arrojo emocional para um cinema mais autoral e transcendente, por outro lado utiliza uma boa cultura técnica para fazer um filme que, no final das contas, funciona.
A começar por uma abertura ágil a apresentar a cena da violação sob a música do rapper Marcelo D2, concentrando, a partir daí a atenção com diálogos nunca banais e cujos closes contínuos acentuam a intensidade e a força desta dissecação de ordem moral sobre os personagens flagrados no apogeu da sua ambiguidade – e com direito a um grande twist final. Talvez tendo em vista uma maior proximidade com um público mais vasto, é sexualmente menos explícito e violento que a versão anterior, o que, em si, não é nem bom nem mau.
O elenco é de alto nível – sendo ainda assim possível destacar os trabalhos do veterano Gracindo Júnior, cujo milionário amoral é captado em todo seu caráter corrupto e delirante, e o de João Miguel, que vem de dois dos mais importantes filmes brasileiros da última década – “Estômago” e “Cinema, Aspirinas e Urubus”.
Para uma história forte e que deixa marcas, um filme razoavelmente à altura.
O Melhor: é um filme que fica na memória
O Pior: não capta totalmente a força da história original

Roni Nunes

