Filme que faz uma inusitada mistura entre drama familiar e pesadelos kafkianos. “A pulga não está” do título italiano faz referência à forma afetuosa com que é chamada Margherita, uma menina autista de nove anos, no seio da sua família – composta pelos pais e pela irmã Giovanna (Francesca Di Benedetto).
Ocorre que apesar de todos os esforços para dar à menina uma vida mais normal possível, com um constante investimento na interação afetiva entre todos, um belo dia a “pulce” desaparece. Sem maiores explicações, a menina é enviada por ordens do tribunal para uma instituição de acolhimento – com visitas vigiadas e restritas a uma vez por semana. Para piorar, pesam sobre o pai suspeitas terríveis.
Todo o dramatismo do conflito Estado x indivíduo e um quotidiano de devastação familiar é visto pelos olhos da irmã adolescente, ela própria às voltas com os problemas típicos da sua idade – às voltas com um quotidiano escolar onde paira a questão maior da sua aceitação pela sociedade.
O realizador Giuseppe Bonito consegue criar um filme tenso e interessante, equilibrando as contas entre o que é mistério puro e simples e o que é polémica – já que a obra é baseada numa história real. O maior senão do filme é que todo ele gira em torno de uma situação para a qual a explicação é insuficiente.
No enquadramento geral, sobra um comentário algo irónico para uma sociedade baseada nos seus juízos de valor e preconceitos – universo para o qual, aliás, a “pulga” está completamente indiferente – conforme bem lembra sua irmã no fim – “ela não quer ser como os outros, está fora do contexto…”
O Melhor: o equilíbrio entre o drama familiar e a questão do Estado
O Pior: a explicação para tudo o que desencadeou o drama é insuficiente

Roni Nunes

