Durante as periódicas “limpezas” nas gavetas que as distribuidoras gostam de fazer em Portugal, atirando no mercado filmes já completamente fora de tempo, vez por outra caem por aí alguns títulos dignos de nota.
Já a fazer quatro anos (!) “Uma Mulher, Uma Arma e Uma Loja de Massas” é um inesperado registo cómico do grande Zhang Yimou – a transitar por aqui num território muito diferente do habitual. Se é uma obra menor dentro da filmografia do realizador, o filme não deixa de ter interesse – pois, além de ser uma comédia, trata-se um remake daquele que é talvez o grande filme dos irmãos Coen, “Sangue por Sangue” – a sua obra de estreia.
Dos confins do Texas, a elaboradíssima e intrincada teia de encontros e desencontros entre um rico homem ciumento que contrata um assassino para matar a sua mulher vai parar a um lugarejo qualquer perdido entre sumptuosas montanhas chinesas.
Na versão de Yimou narra-se a “epopeia” de uma mulher que instala o caos no dia em que resolve comprar um revólver de um vendedor persa que andava por lá. A confusão fica instalada quando esta decisão envolve o seu maligno esposo, um amante que nada ficaria a dever ao leão cobarde do “Feiticeiro de Oz”, dois empregados trapalhões do marido e um ganancioso polícia que se envolve na história por acaso e torna-se seu protagonista.
Longe das sutilezas que faziam todo o charme do original, o cineasta chinês optou por intercalar as peripécias dos seus desafortunados personagens entre cadáveres, tiros, enterros e roubos com o mais escancarado burlesco. O engenho dos Coen é quase assegurado, assim como o toque autoral de Yimou está bastante presente – particularmente na composição visual do seu filme – sempre policromático e dinâmico.
Como comédia, funciona bem como um registo mais clássico, muito longe da parvalheira que seguidamente se instala nos nossos cinemas. Por outro lado, apesar de momentos bastante divertidos, talvez fosse melhor usufruído se não tivesse sobre si a enorme sombra do filme que o inspirou.
O Melhor: o dinamismo e o preciosismo da construção visual
O Pior: a sombra do filme original

Roni Nunes

