Festa do Cinema Italiano: “Bellas Mariposas”, por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

A visceralidade dos “baixos extratos” sociais sempre deu bons resultados no cinema, tanto mais por ser o último reduto de fuga para uma arte longe dos padrões dominantes da pequena burguesia. A acrescentar mais um título ao clube dos filmes com um pé na “obscenidade”, o cineasta da Sardenha Salvatore Mereu narra com grande sentido de humor o dia-a-dia de uma adolescente num bairro social – marcado por uma família numerosa, pobreza económica e, obviamente, violência dos sentidos – particularmente da sexualidade.

A família de Caterina (Sara Poddas) não vai bem nem se recomenda: o pai é um tarado desempregado, dos numerosos irmãos há um no caminho da delinquência, outro metido na droga, uma irmã prostituta e, por todo lado, bebés, crianças, gritos, confusões – e onde até a porta da casa de banho é mandada abaixo. 

Desta existência no inferno a menina de 12 anos só encontra refúgio no mar, para onde vai em companhia da sua melhor amiga Luna (Maya Mulas). Depois do mergulho, a duas fazem longos passeios a comer gelados, falar palermices e, no dia que o filme retrata, roubar dinheiro a um tarado através de uma simulação de sexo oral. Ao mesmo tempo, a sua dura realidade está conectada com o seu despertar adolescente – mediado pelas fantasias de se tornar rockstar e casar com um vizinho…

Filme intencionalmente beirando o documental, conseguindo safar-se mesmo com a grande quantidade de cenas com a protagonista a romper o discurso cénico/narrativo e falar diretamente para o espetador – e onde uma das maiores qualidades é encontrar em toda a amoralidade mostrada um humor e um otimismo que o faz transcender ao registo miserabilista das classes baixas.

Mas foi no processo de casting que Mereu deu aquela que talvez seja a sua grande cartada neste projeto – ao selecionar Sara Poddas em meio a 1500 candidatas. A garota carrega o filme nas costas, esbanja carisma e fica difícil de imaginar, mesmo se levando em conta o inteligente despojo estilístico de Mereu, se essa abordagem do “submundo” excessivamente apoiada numa única personagem se sustentaria sem esse trunfo. Não é o mais genial dos filmes do género (onde reinam obras-primas como “Amor Cão”, de Alejandro Iñarritu, ou “Febre do Rato”, do brasileiro Cláudio Assis, entre tantos outros), mas dá plenamente conta do recado.

O Melhor: a atriz Sara Podda

O Pior: excessivamente narrativo e dependente da protagonista


Roni Nunes

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