O filme parte daquela saudável premissa do cinema alternativo de que não são necessários muitos ovos para se fazer uma boa omelete – embora por vezes aconteça dela ficar insossa por falta de tempero. Com um ponto de partida simples e com um mínimo de recursos linguísticos e visuais, Lorenzo di Constanzo constrói uma interessante metáfora sobre o aprisionamento cultural do indivíduo, diminuído pelos seus próprios e limites e diante dos quais a temida Camorra napolitana aparece apenas como um simulacro externo do medo interior.
Cabe ao jovem vendedor de gelados Salvatore (Alessio Gallo) tomar conta de Veronica (Francesca Riso), aprisionada numa escola abandonada sem que se saiba porquê. Uma missão para a qual não estava minimamente preparado nem interessado – sendo obrigado a fazê-lo sob coação física. Com os dois jovens sem ter muito o que fazer enquanto esperam o retorno do seu algoz com o “chefe” para providenciar o “castigo” para a jovem, bem podia sair daí um romance ou qualquer coisa do género. Ao invés disto, eles passam o tempo a perambular pelos espaços abandonados e pela mata circundante a fazer brincadeiras e a “filosofar” à moda adolescente.
“L’Intervallo” vai se utilizando de simbolismos simples, como os rugidos dos aviões que de tempos a tempos se ouvem sobre a cabeça da menina – e remetem aos seus próprios sonhos de liberdade. Mas estes serão sempre confrontados com limites invisíveis – como o dos pássaros na gaiola do diálogo inicial – um medo que serve como garantia da manutenção das regras sobre as quais “o mundo funciona” – como no discurso que lhe faz o chefe de um gangue.
Com alguns momentos mortos nem sempre de grande utilidade, fica-se por vezes com a sensação de que havia ali possibilidades para mais, mas ainda assim o filme tem alguns achados de grande valor – como a dimensão existencial alcançada com a cena em que os dois adolescentes conseguem subir para um telhado e, através de uma vista privilegiada, vão cristalizando um discurso onde nas entrelinhas dá-se conta da inutilidade (ou não) do próprio género humano.
O Melhor: extrair muitos significados com poucos elementos
O Pior: a sensação de que havia possibilidades para mais
| Roni Nunes |

