«The Wind That Shakes the Barley» (Brisa de Mudança) por Carla Calheiros, Victor Melo e Rita Almeida

(Fotos: Divulgação)

Sinopse

Rémi Francois, também conhecido por Jack Palmer, um detective privado parisiense que acredita que é tão irresistível para as mulheres como esperto no seu trabalho, finalmente aceita a missão de encontrar Ange Leoni, um homem da Córsega que herdou uma pequena quantia de dinheiro, mas desapareceu sem deixar rasto. O caso parece fácil para Jack Palmer, habituado a missões infinitamente mais complicadas. Mas assim que chega à chamada ”Ilha da Beleza” (Córsega), a minúcia converte-se em maldição. 

Elenco

Christian Clavier, Jean Reno, Caterina Murino, Didier Flamand, Pierre Salasca 

Realizado por Alain Berbérian 

Crítica

Adaptação livre de uma banda desenha homónima criada por Pétillon, esta comédia aborda um interessante aspecto, a Córsega e os corsos – povo rude e de costumes próprios, bem diferentes dos franceses continentais. Esta comédia sobre o absurdo vai ao encontro de um detective, Jack Palmer (Christian Clavier), com uma missão aparentemente simples: ir à Córsega entregar a Ange Leoni (Jean Reno) um título de propriedade. 
Deste ponto de partida surge uma agradável e eficaz comédia sobre o absurdo, onde situações quotidianas podem ser genuinamente divertidas. Há realmente cenas deliciosas, como o encontro das diversas organizações separatistas corsas com a polícia, ou os cânticos tradicionais da região. 
Esta é de facto uma das suas melhores armas – os “gags”, que funcionam e que coabitam bem com o desenvolvimento da própria história, entre uma piscadela de olhos a James Bond, e algumas piadas à “aeroplano”. Tudo isto embalado pelas belas paisagens da Córsega, se bem que para conhecer as vistas da ilha este não é o filme indicado. 
Nos papéis principais temos dois nomes de topo. Christian Clavier, que também é co-autor do argumento, está fantástico no papel do detective, que lembra a espaços Peter Sellers. Do outro lado, Jean Reno que já por mais que uma vez demonstrou talento na comédia. Ambos sustentam o filme e conseguem elevá-lo. 
Simples, prático e eficaz, é um filme que diverte bastante, mesmo perdendo fulgor na segunda metade, o que não compromete o valor total da obra. Mais um bom exemplo das boas comédias que nos vão chegando de França. …..…7/10 Carla Calheiros 

Sinopse

Irlanda 1920: trabalhadores da cidade e do campo unem-se para formar uma guerrilha armada para enfrentar os impiedosos esquadrões “Black e Tan” que, chegados de Inglaterra, irão bloquear a tentativa de independência Irlandesa. 
Guiado por um forte sentido de dever e amor pelo seu país, Damien (Cillian Murphy) abandona a sua promissora carreira como médico e junta-se ao seu irmão, Teddy, numa perigosa e violenta luta pela liberdade. 
As ousadas tácticas dos lutadores pela liberdade levam os ingleses a um ponto de ruptura e ambos os lados finalmente concordam em assinar um acordo para evitar mais derramamento de sangue. 
Mas, apesar da aparente vitória, irrompe a guerra civil e membros de famílias que lutaram lado a lado, estão agora uns contra os outros encarando-se como inimigos e pondo a sua lealdade à prova 

Elenco

Cillian Murphy, Padraic Delaney , Liam Cunningham, Gerard Kearney , William Ruane 

Realizado por Ken Loach

Crítica

Ken Loach é um nome habitual em Cannes, com uma dúzia de filmes apresentados no festival ao longo dos anos, com destaque para «Hidden Agenda» e «Raining Stones», ambos vencedores do prémio do Júri. O realizador britânico não só voltou a marcar presença este ano no célebre festival, com venceu a ‘Palma de Ouro’ com o seu último projecto, «The Wind that Shakes the Barley». 
O filme – que em Portugal recebeu o titulo «Brisa de Mudança» – é um drama sobre a guerra da independência Irlandesa (temática que Loach já abordara em «Hidden Agenda»), iniciada com a revolução de 1916 e que acabaria por desencadear a guerra civil de 1920. No seio do conflito, a trama foca-se em dois irmãos irlandeses: Damian, que desiste de uma promissora carreira na medicina por amor ao seu País, e Teddy, que mergulha igualmente na batalha contra os ocupantes ingleses. Após muito sacrifício e sangue derramado, a luta sofre uma ramificação inesperada, que gera consequências significativas na relação de ambos. Com uma fotografia sóbria que viaja por entre os extensos prados irlandeses, as colinas verdes, os campos de trigo, as casas rústicas e as densas nuvens que cobrem o céu cinzento da região de County Cork, penetramos no trágico conflito e presenciamos a camaradagem, o heroísmo e o carácter por vezes fatídico da convicção. 
A película conta com a presença de Cillian Murphy, o actor irlandês que «28 Days Later» de Danny Boyle catapultou para a fama. Seguir-se-iam «The Girl With a Pearl Earring», «Intermission», «Batman Beguins», «Red Eye» e «Breakfast in Pluto». Em apenas quatro anos Cillian Murphy trabalhou com Danny Boyle, Anthony Minghella, Christopher Nolan, Wes Craven, Neil Jordan e agora Ken Loach. Um facto assinalável e nítido reflexo de uma carreira em ascensão meteórica. 
Tal como o realizador Ken Loach fez questão de frisar (na apresentação do filme em Cannes), são amplos os vestígios na História da humanidade onde a violência se assumiu como um recurso capital na resolução de divergências. Essa inevitabilidade é retratada em «The Wind that Shakes the Barley». “Quando se persegue um ideal de justiça, independência e liberdade, e existe resistência, isso gera violência”. No entanto o realizador britânico fez questão de assegurar que houve um esforço minucioso na produção do filme para não romantizar e glorificar a violência. 
“The Wind that Shakes the Barley”, o último filme de Ken Loach – projectado sob o abrasador sol de Cannes e vencedor do festival – agora nas salas Portuguesas. Uma reminiscência das palavras que um dia dançaram ao sabor da pena de Robert D. Joyce. …..…7/10 Victor Melo 

Crítica

A mais recente colaboração entre o argumentista Paul Laverty e o realizador inglês Ken Loach (“Ae Fond Kiss…”), “The Wind That Shakes The Barley”, chega às salas de cinema com o peso de ter recebido da Palma de Ouro na edição deste ano do Festival de Cannes. 
Irlanda 1920. Um amigável jogo de hurling insere-se na paisagem verdejante da Irlanda, mais concretamente no condado de Cork. 
Em Dezembro de 1918 o Sinn Féin tinha ganho 73 de 105 assentos irlandeses. O mandado do Sinn Féin visava o estabelecimento e manutenção de uma República Irlandesa independente, que foi proclamada em Janeiro de 1919, dando início a uma violenta guerra, que escalou, em muitas partes do país a um esquema de guerrilha. Em 1920, a forças especiais britânicas (os ‘Black and Tans’, na sua maioria veteranos da Primeira Guerra Mundial) ocupavam o território irlandês proibindo qualquer tipo de assembleia, onde se incluíam igualmente os jogos de hurling. 
Intimados pelos militares ingleses, o grupo de homens é obrigado a identificar-se. Quando Micheáil recusa dizer o seu nome em inglês, é espancado até à morte. Este incidente faz a politização da personagem principal, Damien (Cilliam Murphy), que decide abdicar do seu plano de exercer medicina em Londres para se juntar ao seu irmão Teddy (Padraic Delaney) lutar pela independência da Irlanda, juntando-se a uma unidade de guerrilha do Exército Republicano Irlandês (IRA). 
A narrativa acompanha as acções desta unidade móvel nas suas investidas contra os militares ingleses até ao momento (Dezembro de 1921) em que o governo britânico apresenta um ultimatum aos negociadores irlandeses: assinarem o tratado que estabelece o Estado Livre Irlandês para 26 dos 32 condados ou então enfrentarem uma “guerra imediata e terrível”. Este tratado é visto por muitos, incluindo Damien, como uma traição, uma vez que exige que a Irlanda do Norte permaneça parte do Reino Unido e que a Irlanda faça um juramento perante a Coroa. Para a maioria dos republicanos, manter o monarca britânico como rei da Irlanda era intolerável. A cisão dentro do Sinn Féin (para a qual a Igreja Católica também contribuiu) entre os apoiantes do Estado Livre e os Republicanos é agravada por um novo ultimatum do governo britânico que exige ao Governo do Estado Livre o desarmamento dos Republicanos sob pena do Tratado ser considerado nulo. Dá-se assim início a uma guerra civil sem finais felizes. 
O filme de Loach não é imparcial, e quem procura um relato histórico isento pode abster-se de o ver. “The Wind That Shakes The Barley” está, também emocionalmente, do lado do Dail Eireann que lutou contra a ocupação inglesa, e do lado dos Republicanos contra os defensores do Estado Livre. Mas mais do que escolher lados, este filme trata da luta contra o imperialismo, não só político, mas também económico, de governos opressivos. 
Loach foge das figuras históricas, personalizando este conflito em homens e mulheres vulgares, pertencentes a uma pequena comunidade rural, mais concretamente nos irmãos Damien e Teddy, que, entre os ideais socialistas de um e o pragmatismo do outro, se verão em lados opostos do conflito civil. Loach transforma o político em pessoal, a tragédia nacional numa dor local. E é por aí que seduz os espectadores. E porque quer Cillian Murphy quer Padraic Delaney têm aqui duas grandes interpretações. 
Loach peca, no entanto, pelo romantismo mítico de que os Republicanos lutavam por uma nação de trabalhadores e camponeses, em contraponto com o governo do Estado Livre, disposto a vender a alma aos homens de negócios para poder financiar as armas contra os ingleses. Esta abordagem é algo redutora e duvido (apesar do meu desconhecimento assumido neste campo político) de que os Republicanos fossem assim tão coerentes na sua missão e na sua política. Curiosamente, é no momento em que é marcada esta posição que o filme perde ritmo. 
“The Wind That Shakes The Barley” é o título de uma canção tradicional irlandesa que marca um dos primeiros momentos dramáticos do filme. A tristeza que o marca não abandona nunca o filme. Porque todo o tenso debate político, a luta de classes, as duras decisões que são tomadas e executadas, são sem triunfo. O extremismo é destrutivo, mas o compromisso nem sempre equivale a paz. O amor tem muito pouco a dizer, ele aqui é elemento de divisão e questiona-se o seu poder para tudo conquistar. Olhando para a Irlanda de hoje, essa questão continua sem resposta. 7/10 Rita Almeida 

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