A história do romance proibido entre dois cowboys, que começa num Verão de 1963 em Brokeback Mountain, e vai permanecendo à medida que os dois vão constituindo família.
Elenco
Heath Ledger , Jake Gyllenhaal, Michelle Williams e Anne Hathaway
Realizado por Ang Lee
Crítica
Raras são as ocasiões em que um filme nos deixa totalmente K.O., fazendo-nos reganhar mais uma vez a fé nesta arte de contar histórias através de imagens em movimento que pode literalmente mudar a vida de muitas pessoas. E raros são os filmes capazes de marcar uma geração inteira, seja pelo ineditismo da sua premissa junto da corrente “mainstream”, seja pelo poder das suas imagens e das suas palavras em assombrar a mente de um espectador. É com uma enorme satisfação que verifico que “Brokeback Mountain“, a mais recente obra-prima de Ang Lee, é um desses filmes. Um filme merecedor de todos os prémios que tem recebido até à altura (e que vai ainda receber) e de todo o falatório que se gerou em torno dele.
A história do romance proibido entre dois cowboys, que começa num Verão de 1963 em Brokeback Mountain e vai permanecendo à medida que os dois vão constituindo família, começou por ser um conto publicado no New Yorker em 1997 da autoria de Annie Proulx e foi agora adaptado de forma brilhante (posso eu supor, ainda não tendo lido o conto) pela dupla Larry McMurtry e Diana Ossana – que são também produtores da película. Parte do ineditismo vem do facto desta ser uma relação homossexual, sim, e todos nós sabemos como o tema ainda hoje é tabu. Mas o maior choque para o espectador comum será sem dúvida a ausência de maneirismos efeminados em alguma das duas personagens, indo completamente contra o estereótipo que a nossa sociedade faz do típico homem “homossexual” ou “bissexual”. Sabemos logo pela caracterização destes dois homens que estamos a assistir a um filme diferente e revolucionário, e sentimos realmente que se está a fazer história.
Ang Lee, o cineasta da repressão social, foi sem dúvida a escolha perfeita. E este “Brokeback Mountain” não podia ser melhor sucessor na sua filmografia, composta por filmes como “Sense and Sensibility“, “The Ice Storm“, “Crouching Tiger, Hidden Dragon” e “Hulk“. Lee parece estar ainda mais atento do que o costume às subtilezas, numa realização repleta de pequenos detalhes (alguns deles sendo apenas visíveis com múltiplos visionamentos), todos eles importantíssimos para uma análise geral da película. Isto para além dos planos magníficos a que o realizador taiwanês já nos habituou, os quais são abrilhantados ainda mais com a fotografia de Rodrigo Prieto e com música de Gustavo Santaolalla, uma dupla que já tinha colaborado anteriormente nos filmes “Amores Perros” e “21 Grams”, de Alejandro González Iñárritu. Brokeback Mountain torna-se então num local mítico e sagrado, como raramente se viu transposto no ecrã, muito graças a estes factores. O local onde nós todos desejamos ir ou regressar e que nos faz acreditar na noção aparentemente ilusória do amor eterno, quer o tenhamos já encontrado, quer ainda andemos à procura.
É importante salientar que este é um filme apoiado numa matriz clássica de história de amor proibida, apesar do factor novidade de ter dois homens em vez do “tradicional” homem e mulher a viver uma história de amor que a sociedade insiste em reprimir. Neste caso, o facto do sexo dos dois protagonistas ser o mesmo é apenas uma agravante, pois o amor heterossexual já foi também muitas vezes condenado pela sociedade no cinema e na realidade, quer fosse pelo adultério, quer fosse por questões económicas, raciais, etc. … Deste modo, qualquer pessoa pode-se identificar com a história, independentemente da sua orientação sexual.
Lee sempre foi um realizador de símbolos e do não dito, com expoentes máximos em “The Ice Storm” e “Crouching Tiger…”, mas aqui parece que se supera a si mesmo. Será o filme do realizador mais passível de originar discussões sobre os seus múltiplos sentidos e merece mesmo uma análise cena a cena, sendo tantos os pormenores subtis que podem escapar a um primeiro visionamento e que nos obrigarão a revisitar Brokeback Mountain vezes sem conta.
O realizador não fala muito com os actores nas rodagens, dando liberdade para eles construírem as suas personagens, e o método tem funcionado na perfeição até agora. Encarnando uma das personagens mais trágicas do cinema recente, Heath Ledger tem aqui uma performance magnífica na sua contenção e repressão de sentimentos e consequentemente de movimentos e palavras. Ennis Del Mar (o próprio nome é simbólico) não é um homem de muitas palavras devido a um passado castrante e quando fala parece que as palavras lutam entre si dentro da sua boca, gerando uma fala bastante atípica e demonstrativa da sua incapacidade para estar à vontade com os seus sentimentos. No papel aparentemente menos complicado (mas só aparentemente) de Jack Twist está Jake Gyllenhaal, o actor revelação de “Donnie Darko” que aqui atinge o ponto mais alto da sua carreira até à altura – algo que partilha em comum com todo o elenco de jovens actores.
Michelle Williams e Anne Hathaway são igualmente impressionantes nos papéis de Alma e Lureen, as mulheres dos dois protagonistas. Embora o destaque feminino nos prémios tenha sido todo dado a Michelle, pois tem que carregar com mais cenas dramáticas (a cena da cozinha onde Alma confronta Ennis será perfeita para usar no seu “oscar clip”), não se pode menosprezar o trabalho de Anne Hathaway e das outras mulheres que contribuem com pequenas grandes interpretações (Linda Cardellini, Anna Faris, Kate Mara e Roberta Maxwell). E até de Randy Quaid, no seu papel limitado de Joe Aguirre, o dono do rancho.
Para além de ser revolucionário, “Brokeback Mountain” é acima de tudo uma história de amor trágica e universal – na melhor tradição do melodrama romântico com contornos épicos – e como há muito tempo não se via, capaz de mexer profundamente com as nossas emoções mais bem guardadas e destinado a ser um dos grandes clássicos do cinema contemporâneo… 10/10 André Gonçalves
Crítica
No verão de 1963, uma montanha no seio das paisagens deslumbrantes de Wyoming, é o pano de fundo para uma história de amor.
Ennis del Mar e Jack Twist são dois vaqueiros que aceitam um trabalho que requer levar um colossal rebanho de ovelhas para a vastidão dos prados da montanha. Durante alguns meses os dois homens vão conviver com o clima esquizofrénico da montanha, partilhar a ardência do sol, o enregelamento dos nevões, as tempestades diluviais, os trovões, os silêncios, os risos, as águas refrescantes do lago, todo o idílico quotidiano naquele refúgio natural… nos terrenos verdejantes de Brokeback Mountain seria plantado um sentimento, um ser natural que iria respirar, crescer e desenvolver-se um pouco mais do que os plantadores previam… mas que seria nutrido com mútua devoção…
Era uma premissa arriscada, não só pela polémica inerente, mas pela expressividade com que Ang Lee e os actores teriam de impregnar à produção, de forma a dotá-la de veracidade.
O núcleo, a efervescência da película está presente na densidade emocional que Heath Ledger e Jake Gyllenhaal concebem às suas personagens, aos seus sentimentos, paixões, ilusões e receios.
Sente-se a intensidade de um amor proibido, a dor da sua repressão e a dor da submissão ao mesmo, infligidas por uma conjuntura social que não estava preparada para semelhante sentimento.
Não estamos presente o mero conceito da célebre obra shakespeariana entre Montagues & Capulets. Em brokeback mountain, tanto Elis como Jack estão perfeitamente cientes que o sentimento que nutrem é anómalo. O mesmo não fazia parte do que ambos tinham previsto e idealizado para o seu futuro. No entanto, não lhe conseguem resistir.
Quando os dois cowboys estão juntos, a pujança da virilidade masculina é canalizada para ultrapassar as barreiras sociais e convencionais que lhes fazem frente e não para forçar a negação de um sentimento.
As interpretações são tão boas, dotadas de uma robustez tão forte, que sustentam na perfeição as pequenas elipses que o argumento disponibiliza propositadamente.
As repercussões nos quadrantes familiares, as dúvidas, sonegações, saudades, solidões… o germinar de momentos de sofrimento silencioso, verdades não assumidas, sentimentos reprimidos, destinados a culminar em fúria como o Vesúvio…
A mestria de Ang Lee está presente em todos os ângulos desta produção.
Na forma como conseguiu espremer este néctar interpretativo dos seus actores, na forma como arquitectou o argumento e a sua cadência, num ritmo lento e dinâmico nos momentos certos, enfim, na densidade que conseguiu atribuir a cada fotograma desta película.
Isto auxiliado por uma fotografia apaixonante e uma banda sonora lindíssima, gera um produto final que se afirma como um dos melhores filmes do ano.
Um grande momento de cinema, oculto na fria silhueta de brokeback mountain e que demonstra, de forma tão lírica quanto veemente, que até nos mais recônditos “espaços”, não há barreiras para a afectividade humana…9/10…. Victor Melo

