“Dark Water” conta a história de uma mãe e de uma filha, que se mudam para um novo apartamento após um longo processo de divórcio. Dispostas a refazer a vida, elas começam a ser atormentadas por o espírito carente de alguém que lá viveu anteriormente.
Elenco
Jennifer Connelly, Ariel Gade, John C. Reilly, Dougray Scott, Shelley Duvall, Tim Roth, Camryn Manheim, Perla Haney-Jardine, Pete Postlethwaite
Realizado por: Walter Salles
Críticas
Dahlia Williams (Jennifer Connelly) é uma mulher que se encontra prestes a refazer a sua vida, ao mesmo tempo que enfrenta um difícil processo de custódia pela sua filha Cecilia (Ariel Gade) e que tenta fugir a um passado traumático. Um novo apartamento e um novo emprego parecem ser uma excelente maneira de começar uma nova vida, mas o seu novo apartamento não é tão perfeito como aparentava…
Eu não sei o que é que o departamento de marketing da Disney está a pensar quando vende gato por lebre ao espectador. Se é certo que a estratégia resultou em parte com o magnífico “The Village” no ano passado, isso não significa que vá resultar com um filme de um realizador estrangeiro a fazer o seu primeiro filme em território norte-americano. “Dark Water” é o terceiro remake americano de um filme de suspense japonês. Após os sucessos de “The Ring” e “The Grudge”, este novo remake parecia ter muito a seu favor… mas o filme não foi o sucesso que muitos estariam à espera. O “problema” é que, tal como o filme de M. Night Shyamalan (aliás, tal como qualquer filme deste realizador), o realizador basileiro Walter Salles opta por se apoiar nas suas personagens e na história em vez de abusar dos chamados “sustos fáceis” (que aqui se contam pelos dedos de uma mão e são todos bem orquestrados por sinal) para criar uma atmosfera constante de inquietação, com um ritmo deliberadamente lento. O terror aqui é praticamente invisível durante quase toda a película – é um terror cerebral que nasce do medo do desconhecido mas que recusa mostrar o que muitos gostariam de ver e o que os “spots” promocionais pareciam prometer mostrar. Neste sentido, estamos mais (e ainda mais que o original de Hideo Nakata, penso eu) perante um comovente drama psicológico do que um filme de terror puro, onde a personagem principal luta constantemente não só pelo bem da sua filha mas também pela sua própria sanidade mental que se vai degradando à medida que os estranhos acontecimentos vão ocorrendo com maior intensidade.
Jennifer Connelly tem aqui uma das melhores interpretações da sua carreira (se não for mesmo a melhor): a sua vulnerabilidade é no mínimo tocante e o seu amor pela personagem de Cecilia é altamente tangível. O resto do elenco não fica muito atrás. Ariel Gade é uma filha adorável e mais uma revelação no campo da representação infantil; John C. Reilly é o típico dono de condomínio que se esforça ao máximo para dar a melhor impressão do que tem para vender, mesmo que o “produto” esteja longe das expectativas – a sequência em que a sua personagem mostra a casa a Dahlia é das sequências mais divertidas de um filme com um tom bastante negro para um “filme de verão”; Tim Roth está quase irreconhecível num papel diferente ao que estamos acostumados a ver deste actor- e é também dele que surge algum “comic relief”; Pete Postlethwaite faz mais uma vez uso do seu aspecto algures entre o esquisito e o sinistro; Dougray Scott não tem tanto tempo para desenvolver a sua personagem mas também deixa boa impressão; e o mesmo se pode dizer de Perla Haney Jardine (“Kill Bill Volume 2”) e Camryn Manheim (da série de TV “The Pratice”).
Destaque ainda para o belíssimo trabalho de fotografia de Affonso Beato (“Tudo sobre mi madre”, “Ghost World”). Quase que apetece pegar no telemóvel e tirar algumas fotografias para levar para casa. É um filme de uma beleza estonteante, onde a água toma vida própria e se torna simultaneamente uma ameaça e uma atracção. A banda sonora de Angelo Badalamenti (habitual colaborador de David Lynch), apesar de não ser particularmente emblemática, salienta o tom dramático da narrativa.
Muitos ficarão desiludidos com o filme, isso é mais que certo. Os puristas que odeiam a noção de ver a mesma história – e ainda por cima vinda de terras do tio Sam(mesmo que dirigida por um estrangeiro e feita com mestria) e os adolescentes à procura de dar pulos na cadeira a cada minuto estarão certamente entre esse grupo de pessoas que odiará o filme com paixão. Além disso, e graças à campanha de marketing agressiva e de certo modo fraudulenta, o verdadeiro público alvo deste filme (apreciadores de dramas “indie” e histórias intimistas) pensará duas vezes antes de ir ver o filme. E não podemos esquecer que o mercado se encontra completamente saturado e já viu várias cópias dos remakes, umas com mais sucesso que outras. Analisando todos estes factores, não será muito difícil arranjar motivos para o insucesso deste filme no outro lado do Atlântico onde se debate neste momento para fazer a módica quantia de 30 milhões de dólares.
Não sou apologista número um desta onda de remakes, apesar de não os condenar à partida, como certas pessoas. No fundo, são como “covers” de músicas: a letra(argumento) não é muito alterada é certo, mas a abordagem a esta é sempre diferente, porque as sensibilidades de quem está por detrás mudam. Há as boas/muito boas versões e há as menos boas. “Dark Water” pertence definitivamente ao primeiro grupo, tal como os anteriores dois remakes já previamente referidos. E faz mais que jus ao original… aliás, um complementa o outro na minha opinião. Uma coisa é certa: numa altura em que Hollywood começa a repetir a sua própria fórmula, se esta for a maneira de fazer excelentes filmes “made in U.S.A.”, como estes três (mesmo que sendo adaptações de filmes “made in Asia”), então eles que venham…
Um filme que merece muito ser descoberto, sobretudo para quem tem saudades de um filme de suspense “à moda antiga”, onde os dramas e conflitos interiores das personagens vinham sempre em primeiro lugar. Para os restantes, é necessário uma mente mais aberta para apreciar o filme. E é preciso acima de tudo perceber que este não é o típico filme de terror de sexta-feira à noite… ..8/10… André Gonçalves
Crítica
Esqueçam as invasões extraterrestres, os fantasmas e os espíritos em busca de paz. Esqueçam o aquecimento global, o velho assassino e até os monstros que pelo cinema vagueavam. Nada disso é importante no cinema actual, e tudo parece apenas um objecto, um instrumento ao serviço da mais recente paranóia que o cinema americano parece querer abordar: as famílias disfuncionais e monoparentais. Sim, de uma forma camuflada e até cobarde, como quem tem medo de abordar directamente o assunto, tantas vezes relegado para o mundo indie, o único com suficiente coragem para desferir verdadeiras machadadas no “american way of life”. Mas será que depois da invasão familiar, perpetrada pela Disney, em dezenas de filmes, bem acompanhada pelos outros estúdios, temos uma verdadeira revolução familiar no cinema americano? Talvez…
Mas porquê uma introdução como esta? A razão é bem simples, e chama-se o exagero disfuncional. Depois de termos assistido a uma guerra da família (qual guerra dos mundos, qual quê!!) chega agora aos cinemas uma obra vendida como terror, mas manipulada como mais um dos retratos da “actual” família americana. É curioso constatar a evolução destas películas. Houve o tempo da família padrão, depois vieram alguns filmes que mostraram a degradação familiar (tendo muitos deles roçado a bizarria – vejam “Hapiness” ou “American Beauty”) e agora parece que chegámos ao após separação/divórcio (muito longe da frontalidade “Kramer”). “Dark Water” é mais um filme deste género, e muitos até poderão desculpar esse facto por ser um remake, e no original já estar essa temática em jogo. Que me perdoem, mas eu não alinho nessa desculpabilização, acima de tudo porque a versão japonesa era em tudo equilibrada no jogo terror/drama familiar, e muito mais sugestiva – e por isso mesmo mais poderosa.
O filme americano é um mero drama com problemas a nível das canalizações de um prédio. E não me venham com teoria que na música há covers, e que por isso também podem existir no cinema. Obviamente que sim, mas a única razão porque actualmente se fazem remakes de sucessos asiáticos é porque são fórmulas vencedoras à partida (no box-office). Tudo começou com “The Ring”, prolongando-se com “Shall We Dance”, e não é à toa que neste momento estão em preparação mais de 60 remakes de filmes asiáticos. Tenham atenção nisto que vos digo (soa bastante a presunção, eu sei). O único objectivo/razão (de existência) destes filmes é fazer dinheiro, pois os originais não o fariam por não terem estrelas ocidentais e uma língua amigável ao nosso ouvido.
Há porém nestas produções o tal dedo dos cineastas. Verbinski fez isso em “The Ring”, dando-lhe um toque mais visual. Salles, que vinha de uns interessantes “The Motorcycle Diaries”, deu a sua alma ao filme, fracassando por completo no terror e “triunfando” onde se sentia mais à vontade: o drama.
E “Dark Water” é isso mesmo. Um drama interessante, mas um fiasco no supense.
Dahlia (Jennifer Connelly) é uma recente divorciada que busca casa para viver com a sua filha. Envolvida num complicado processo de divórcio, a tutela da filha ainda está a ser discutida, e uma decisão em tribunal não está ainda excluída. Há assim a necessidade desta jovem encontrar uma casa e emprego condigno para que ela possa lutar pela posse da criança. É num subúrbio que Dahlia encontra uma casa que pode pagar, não suspeitando ela que o prédio onde vai habitar esconde um terrível segredo, que se manifesta através da água que escorre pelas paredes do edifício.
Inicialmente o filme vai apresentando as personagens e fazendo um bom jogo entre o mistério e o drama, mas à medida que a obra vai evoluindo, o segredo por detrás dos misteriosos eventos que ocorrem no prédio vão sendo relegados para segundo plano, caindo o filme num drama familiar que entra pobremente (e demasiado explicitamente) na psicologia das personagens. Regressamos ao passado e voilá, temos uma aula de psicologia traumática gratuita.
Quem realmente ganhou com esta decisão do argumento e realização é Connelly, que consegue uma bela performance pois foi decidido que a actriz teria de carregar a película às costas. Este não é, de todo, o ambiente do “Dark Water” original. Mas para ser imparcial, vamos esquecer que existiu alguma vez um filme japonês. Vamos analisar esta obra como única. O que temos então aqui? Temos um filme de suspense, que de repente decide ser um drama, mas que não consegue ser subtil, e transforma a personagem principal em mártir, com um toque irritante (de problemas psicológicos e traumas de infância) que me fez até mesmo lembrar “A Beautiful Mind” – que curiosamente também tem a JC no elenco.
Por outro lado, o filme não tem nenhum momento que realmente eu evidencie como a sua “marca”, ficando até a banda sonora de Badalamenti alguns furos abaixo do esperado. Será que me vou lembrar de alguma cena em especial daqui a uns anos? Não me parece, e como tive de até consultar o nome das personagens na IMDB (se realmente fossem marcantes, eu lembrava-me) não tenho dúvidas que estamos muito longe de um filme marcante.
Mas há mais. A realização passou toda a responsabilidade à actriz principal, e se o filme consegue funcionar minimamente é devido à presença de Connelly, uma actriz em nítido crescendo dramático. Realce ainda para a presença de Tim Roth, que anda tão afastado (injustamente) das grandes produções.
De resto é algo já batido, rebatido e aprofundando. Dramaticamente, “Dark Water” não trás nada de novo. Em termos de mistério fica a milénios de outras obras do género.
Por todas estas razões, volto a dizer que “Dark Water” acaba por ser um remake desnecessário, pois apesar de dar uma nova dimensão narrativa à temática, não a melhora ou complementa. Apenas ocidentaliza, tornando tudo muito menos sugestivo, menos espiritual e muito mais terra-a-terra. …O que é pena. 5/10 … Jorge Pereira

