“Sin City” é a adaptação ao cinema da BD “Sin City” de Frank Miller, que partilha a realização do filme com Robert Rodriguez. Gravado em três segmentos representativos de três histórias diferentes (“Sin City”, “The Big Fat Kill” e “That Yellow Bastard”), o filme irá retractar a vida em Sin City, a cidade do pecado.
Esta é uma cidade violenta, onde as ruas podem ser mortais e a polícia é facilmente subornável.
O filme conta a história de Marv (Mickey Rourke), um homem que inicia uma escalada de violência quando Goldie (Jaime King), uma mulher com quem dormiu apenas um vez, é morta enquanto dormia ao seu lado.
Temos ainda a história de um fotógrafo, Dwight (Clive Owen), que mata acidentalmente um polícia condecorado e que tenta a custo esconder o que fez. Finalmente temos a história de um polícia chamado Hartigan (Bruce Willis) que é preso por um crime que não cometeu.
Elenco
Bruce Willis, Mickey Rourke, Clive Owen, Elijah Wood, Benicio Del Toro, Rosario Dawson
Realizado por: Robert Rodriguez, Frank Miller
Critica
Como grande fã do trabalho de Frank Miller, a ânsia em ver “Sin City” corroía-me há meses. Quando assim acontece, quando as expectativas são elevadíssimas, o mais natural é que quem busca esmeraldas numa sala de cinema não se contente com meros topázios. Assim foi com “Matrix”, assim deveria ser com “Sin City”.
“Sin City -A Cidade do Pecado” nasceu em 1991 a partir da imaginação e do traço habilidoso de Frank Miller, um mestre moderno da banda-desenhada. Esta cidade, cujo real nome é “Basin City”, é negra, repleta de criminosos, corruptos e vítimas muito apetecíveis.
Profundamente inspirado nos “film noir” e nos contos “Pulp” dos anos 40, “Sin City” é uma novela gráfica estampada numa tela, um relato doentio sobre o pior que há nas pessoas, uma estilização de um mundo sujo e onde nada nem ninguém parece ter salvação.
A primeira cena filmada foi uma sequência protagonizada por Marley Shelton e Josh Hartnett, adaptada directamente da curta história “The Customer is Always Right”e que serviu para Rodriguez convencer Frank Miller a permitir a adaptação de “Sin City” ao grande ecrã. Há que dizer, porém, que as maiores fontes de inspiração e adaptação vêm de “Sin City”, “The Babe Wore Red” e “That Yellow Bastard”. (há ainda uma sequência que vem directamente de “A Dame to Kill For”, mas é apenas um pensamento de Dwight sobre Marv) O filme é constituído de base em três histórias, que a espaços levarão a que todos os intervenientes se cruzem num bar.
Na primeira história temos Hartigan (Willis), um polícia prestes a ser reformado mas que antes disso terá de completar uma última missão. Essa missão, que o seu parceiro tenta evitar que ele conclua, envolve o filho de um poderoso senador. A vítima chama-se Nancy (Makenzie Vega), tem 11 anos e prepara-se para ser a 4ª vítima de Roark Jr (Sthal), um pedófilo assassino. Esta primeira história é depois interrompida e continuada no fim, volvidos oito anos.
A segunda história envolve Marv (Rourke), um homem que após uma noite com Goldie (Jaime King) constata que ela morreu a seu lado sem que ele tivesse reparado. Mas para além de ir procurar a vingança devido a terem morto a única mulher que até hoje ele amou, existe o facto que também tentaram incriminá-lo dessa mesma morte. O seu nemesis nesta história é Kevin (Wood), um silencioso e ágil assassino com especial apetite por carne humana.
Já a 3ª história envolve Dwight (Owen), um homem com um novo amor (Shellie – Britanny Murphy), o que não agrada muito a Gail – uma paixão antiga de Dwight e a chefe das mulheres (prostitutas) que controlam a Cidade Velha. Mas não é com Gail que Dwight vai ter que se preocupar, mas sim com Jackie Boy (Del Toro), o obsessivo ex-namorado de Shellie. É numa perseguição a Jackie Boy na Cidade Velha que as coisas se vão descontrolar, ficando a estabilidade do local ameaçada pela polícia e pela máfia.
Regressamos então à primeira história. Nancy tem agora 19 anos e é dançarina num bar onde quase todos os protagonistas deste filme vão. Tramado pela lei, Hartigan esteve oito anos detido e agora procura a jovem que salvou no passado. O problema é que Roark Jr está de volta, numa forma humana bem diferente e muito mais “sacana”.
“Sin City”, para além de ser a mais fiel adaptação (ou tradução) cinematográfica de uma banda-desenhada, é puro cinema experimental com meios. Hoje em dia, e de forma muito errada, só se valoriza quem faz experiências em cinema com poucos recursos. Veja-se “Dogville”, onde o espaço do que é teatro e do que é cinema se funde harmoniosamente, ainda que com grande vantagem para o teatro, pois volta a limitar o cinema aos tempos em que não existiam meios para uma verdadeira emancipação. “Sin City” é o oposto. Submete o cinema ao visual e estrutura da banda-desenhada, mas fá-lo dar um passo em frente, derrubando barreiras e limites que só podiam existir nas mentes de alguns.
Mas será que apenas evoco isto pelo visual do filme? Não. Pelo menos como única razão. O que Rodriguez e Miller conseguiram neste trabalho é um híbrido perfeito, uma “jam session” cinematográfica, uma tremenda fusão de duas artes, que ainda têm tempo para pescar uma teatralidade absorvente nas interpretações (em geral brilhantes) e um fantástico lirismo nas palavras. E depois há o tal visual, onde certamente muitos vão castigar o tal excesso de efeitos e libertar o seu ódio visceral a obras onde o ecrã verde é rei e senhor. Só que aqui era inevitável. Era impossível captar a essência do trabalho de Miller de outra forma. E não falo apenas na iluminação ou cinematografia, tão importantes nos traços e fotogramas da obra. O ambiente que toda esta envolvência estilística cria é o fundamental. Nunca nos conseguimos sentir confortáveis nesta cidade e neste filme. Todas as personagens parecem ter algo a esconder e todas as ruas parecem frias, doentias e repletas de maldade.
Tudo isto só foi possível devido ao trabalho conjunto de dois homens: Miller, o criador, e Rodriguez o experimentalista, que com sapiência e munido da mais avançada tecnologia de câmaras digitais (ao que se juntou o já famoso “digital backlot”), conseguiu criar um mundo ímpar e repleto de verdadeiras tiras animadas. Para além disto, a cuidada edição e um fundo sonoro bastante poderoso dão a este filme um tom único, que certamente agradará os fãs das novelas gráficas e a todos os que não limitam o cinema a quatro paredes bem fechadas, onde só algumas formas de arte parecem poder aceder…
| Jorge Pereira |

