“One Hour Photo” por Jorge Pereira, Cátia Simões, José Pedro Lopes

(Fotos: Divulgação)

Sinopse

Um homem trabalhador de uma loja de revelação de fotografias fica obcecado por uma família sua cliente. A partir daí começa a “perseguição”….

Elenco

Robin Williams e Connie Nielsen

Realizado por Mark Romanek

Crítica

One Hour Photo é um thriller perturbante. Não, isto não é aqueles rótulos que se colam em cada edição de filmes de terror ou thrillers em geral. Houve muita arte em o fazer assim.

Realizado por um homem muito ligados aos videoclips musicais, o filme choca com a simplicidade fotografia que sinceramente é muito mais complicada de criar que o mais belo efeito ou filtro trabalhado. Se normalmente os realizadores de videoclips descambam em complexas formulas de apresentação de imagens, sempre baseadas em efeitos e ultra tecnologias mais ou menos inovadoras (casos de Tarsem em “The Cell”, ou Wainright em “Stigmata”), “One Hour Photo” é quase que um vazio espacial e humano, estrondosamente conseguido.
Sey é um homem sem vida e ao contrário do que normalmente acontece, parece que nunca viveu. Não é à toa que a sua mãe é uma fotografia comprada numa feira da “ladra”. Trabalha numa loja de revelação de uma cadeia de supermercados e até aí não passa de um mero peão, ou como alguém lhe diz “muito longe do topo da cadeia alimentar” da empresa. Desde a sua vida, à sua casa, ao seu carro, ao seu trabalho o vazio é indescritível. Mas claro que sida queria uma vida diferente. O seu sonho é estar na fotografia de alguém. Ser importante, fazer parte de um bom momento da vida, pois só esses são filmados. O alvo é uma família tipo americana. Felizes (aparentemente), o sonho de qualquer um, ou pelo menos de Sey. Na verdade foi a mentira em que caiu que o levou “à loucura”.
É impressionante como um filme nos consegue perturbar e aquilo que mais choca, é a simplicidade. Neste aspecto a fotografia e o design de produção são magistrais. Cada pessoa, o seu espaço, a sua roupa e a sua “cor” desperta de imediatoum sentimento. Destaque para uma banda sonora verdadeiramente “possuída”. Preenche e carimba cada personagem e cada momento. Maravilhosamente escolhida. No campo das interpretações creio que mais não era exigido. Williams é aquilo…aliás deixou mesmo de ser Williams. Lá estava Sey e não um actor. Que mais se pode exigir?
O restante casting esteve muito bem estruturado. Parabéns à realização que a meu ver esteve bem. Não nos atafulhou com flashbacks e criou aquilo que realmente é perturbante. Apenas um reparo. O final…aqui creio haver uma explicação a mais…pois todo o filme chegava para demonstrar a razão. Um bom filme que é bem provável que não goste… não por ser mau (longe disso), mas porque é doentio… A ver definitivamente…. 8/10 Jorge Pereira

Crítica

Perturbante é a palavra que melhor define este filme. Perturbante, inquietante, agitador. Um filme que não nos deixa indiferentes, que realmente mexe com as nossas sensações. Tudo está aliado para nos criar irritação, ao ponto de ficar com o coração nas mãos e sentir comichões… as personagens são irritantes, a música doentia, os ambientes claustrofóbicos. Se esperam um filme descontraído e que vos faça sentir bem, este não é filme para vocês. Chega a ser doentio. O cenário está muito bem montado, as cores muito bem escolhidas. Prima o branco, alusivo ao flash de uma máquina fotográfica, ao vazio, ao nada. Aparece sempre aliado a Sy (Robin Williams), reforçando ainda mais o vazio da sua vida. Mero passageiro, nunca fez nada de importante, não tem ninguém, não é ninguém. A sua vida é nada. A música está perfeitamente conjugada com o cenário e movimentos das personagens, é enervante, inquietante, enche-nos por inteiro, muito ao estilo de Hitchcock… mas o que importa mesmo salientar é a estrondosa interpretação de Robin Williams.

 
Os restantes actores estão bem, mas Robin leva o filme às costas. Irrita-nos, dá-nos pena, faz-nos gostar dele e não conseguir culpá-lo pelo que faz. É, sem dúvida, uma personagem doentia e perturbada, mas acaba por nos perturbar a nós em cada momento, em cada gesto, em cada palavra. O próprio guarda-roupa da personagem nos faz sentir carinho por ela, reforça o vazio da vida dele… Os restantes actores estão bem, mas Robin está fantástico. Para um filme baseado em fotografias, a sua própria fotografia não é demasiado elaborada ou muito exagerada. O filme prima pela simplicidade, desde a montagem à cor… e as fotografias apresentadas são extremamente humanas, “home-made”. O realizador consegue fazer-nos algumas surpresas, nomeadamente nos sonhos de Sy, que parecem mesmo reais. A justificação final para as suas acções pareceu-me desnecessária… já tínhamos percebido que ele era perturbado, não era necessário repetir… O efeito do filme reflecte-se quando se sai da sala e se pensa que qualquer um pode ser como Sy… a perturbação mantém-se durante algum tempo. No entanto, não consegui realmente perceber se tinha gostado do filme ou não. Não nego que é um bom filme, bem realizado e bem representado. Mas fez-me sentir de tal modo tensa e perturbada, enojada, até, que não consegui compreender se tinha realmente gostado… é, quanto a mim, a única falha, obviamente a nível pessoal… 7/10 Cátia C. Simões

Crítica

Nos dias de hoje, cada vez mais sentimos a necessidade de catalogar os horrores que presenciamos, e de atribuir culpas e culpados. E “One Hour Photo” é um filme que nos baralha neste sentido, já que não nos permite lançar um julgamento final sobre nenhuma das suas personagens. Será justo culpar Robin Williams de algum verdadeiro crime? Será justo classificá-lo só como vítima ou como vilão?

Não seria justo, e é dentro dos inúmeros contornos que a personalidade de Sly (o homem da loja das fotografias) tem que nos perdemos num mundo de deanbulações.
Esta é a história de um solitário contada na primeira pessoa – sentimos a sua vida vazia e aprendemos a forma como ele a enche – com a vida e a alegria de Connie Nielsen e a sua família.
Mas será muito diferente a reacção de Sy quando descobre o adultério do marido de Connie, assim como quando é despedido, da reacção de um drogado que não consegue a dose? E será que ele realmente chega a ir longe de mais?
A forma notável como a vida de Sly está retratada revela a maior das verdades sobre as vidas dos “peeping toms” (vouyeuristas) – a mente é feita de inconsistências. Nunca saberemos o que Sy queria realmente dizer no seu emocionado monólogo final, nem saberemos o que ele realmente queria com aquela sinistra sessão fotográfica no hotel. Porque ele põe a policia atrás dele apenas para depois tentar fugir nem porque fica furioso ao constantar que Connie tolera a infedilidade do marido.
No meio da confusão toda da existência de Sly, poderemos sentirnos tentados a pô-lo numa cela junto com Norman Bates de “Psycho” (a sua atitude no final é algo semelhante) mas será que ele fez algo de realmente errado?
Para além do desafio interessante que esta personagem lança sobre a mente de um perturbado, é importante realmente a expantosa actuação de Robin Williams, muito melhor aqui do que em “Insonia”, a sua encarnaçao em personagens menos sãs (porque considerar Sy como vilão é facioso). Mark Romanek mostra no ecrã o perito em fotografia que é, e este filme revela-se como um sério candidato a melhor fotografia do ano – toda a atmosfera visual criada quase lembra os ambiente surrealistas que David Lynch incutia aos seus filmes nos finais dos anos 80, inicios de 90.
Um relata estético mas realista e cru, sem fantochadas nem exageros, sem bons nem maus. E um grande grande Robin Williams.
8/10 José Pedro Lopes

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