«Les Filles du Botaniste» (As Filhas do Botânico) por Carlos Natálio

Sinopse

Na China dos anos 80, Min, uma jovem órfã, parte para fazer os seus estudos na casa de um botânico de renome. Feliz por poder partilhar a sua vida solitária, Min encontra nessa casa An, a filha do botânico, e vai desenvolver com ela uma amizade que vai para além daquilo que é permitido e aceitável para quem as rodeia. 

Elenco

Mylène Jampanoï, Xiao Ran Li, Fu Ling 

Realizado por Sijie Dai 

Crítica

Medicina natural, relação mestre/aprendiz, amor proibido. O que é que estas três realidades têm em comum? Aparentemente nada. Mas se pensarmos bem, estamos perante três universos ficcionais bem velhinhos, a que o cinema oriental, sobretudo o destinado a consumo ocidental, recorre. São precisamente estes os pilares de “Les Filles du Botaniste”, quinta obra do cineasta, ou devo dizer, sobretudo escritor, o chinês residente em França, Sijie Dai. 
“Xiao cai feng” (título inglês, “Balzac and the Little Chinese Seamstress”) é o nome do seu penúltimo filme, adaptação do seu primeiro romance do mesmo nome e talvez a sua obra de maior sucesso. Tendo chegado a ser nomeado para o Globo de Ouro para melhor filme estrangeiro, acompanhava a história de dois estudantes, durante a revolução cultural da China dos anos 70, que são enviados para uma montanha isolada, para, pelo trabalho e privações, serem expurgados da maldição da influência da cultura ocidental. 
Quatro anos volvidos manteve-se o ambiente conservador que rodeia o par protagonista, sendo que desta vez o cerne da questão é uma relação lésbica. Esmiuçando: Li Min (a sino francesa Mylene Jampanoi, que conhecemos do remake de Clouzout “36 Quai des Orfèvres” ) é órfã e começa por sair do orfanato onde foi criada desde criança para ir aprofundar as artes da botânica junto do famoso professor Chen (Dongfu Lin). E se há coisa que sabemos é que os mestres orientais são super atentos e caprichosos na relação com os seus alunos, não lhe perdoando qualquer falta. Este não falta à regra, e na sua obsessão com a disciplina e rigor, vai fazendo a vida difícil à pobre Li e à própria filha Cheng Na. Estas naturalmente vão apaixonar-se (talvez mais por cumplicidade de situações semelhantes que por outra coisa) pondo em cheque o equilíbrio daquele local paradisíaco e das suas milenares e intocáveis relações. 
Este “Les Filles du Botaniste” é aborrecido. Há que dizê-lo. E não porque não tenha actores com talento, não porque não tenha um argumento apesar de tudo interessante. O problema é que o ponto de vista do autor não descola de um romance langoroso de cordel, movendo-se sempre em territórios paralelos face ao que realmente interessa àquela “gente”: o que por exemplo uniu aquelas mulheres, a natureza da relação do pai com as suas “filhas” ou o substrato cultural vivido na China que via a homossexualidade como uma doença. Ao invés, filma-se sempre para o bonito, com um universo pastoso e clichético. Exemplos: as intermináveis massagens na estufa, sob vapores medicinais, corpos debilmente eroticizados, para tal cobertos de água, lama ou leite, o pássaro preso na gaiola, as metáforas bolorentas como o ginseg e a sua alma, ou os pombos libertados para a realização do desejo mil vezes expressas, e outras tantas vezes inconcretizável, de poderem ficar juntas para sempre. 
Quase sempre órfão de ideias originais, é uma obra que nunca chega a arrancar. Sempre anódino, nunca escalpeliza instituições, nunca, na sua vertente por vezes documental e mostradora, investe na ambiguidade e na intriga. 
A esta obra que se vê de uma relance como um romance numa viagem Lisboa/Porto, falta a força sexual de “L’amant” de Annaud, a maturidade de “Brokeback Mountain” de Ang Lee, ou a pureza e minimalismo de “Spring, Summer, Fall, Winter… and Spring”, de Kim Ki Duk. 
Ah! e menos música… por favor. .…
 
 
 Carlos Natálio
 

Destaques