
Pensado como um livro de Horas medieval, este é um filme que em duas linhas de tempo distintas conta a vida no Douro e da produção vinícola dessa zona. A primeira linha é a dos ciclos anuais da produção do vinho: do podar, à preparação da terra, à enxertia, à vindima e ao pisar da uva, todos os aspectos deste ciclo estão aqui focados e fornecem a estrutura ao filme. A segunda é a da História, da modernização dos processos, das transformações sociais e da preocupação com o futuro para a zona.
É um filme de uma beleza visual incrível, com uma fotografia marcante e uso de imagens de arquivo para ilustrar muitas das histórias contadas. Construído sobre entrevistas a pessoas que habitam na zona, as histórias são desde histórias das famílias da zona, histórias sobre a vida antigamente, histórias individuais de participantes da produção do vinho ou discussões sobre o possível futuro, o desinteresse das novas gerações e a preocupação com o manter uma personalidade característica tanto ambiental como vinícola.
Admito a minha parcialidade sobre o tema: a minha família é dessa zona e está ligada a essa indústria, havendo até a participação no filme de um primo mais velho. Admito que, por vezes, entre as imagens que fazem parte do meu imaginário infantil e as histórias contadas, a emoção me embargava e o cinema ficava um pouco turvo com a humidade. Apesar disso, a qualidade deste documentário é indiscutível e o interesse também: mesmo sem qualquer ligação à zona e até sem qualquer interesse em vinho, há algo mágico nas vivências cíclica e linear, tão bem descritos e capturados. Na conversa que precedeu a apresentação do filme, foi referido que um primeiro corte do filme tinha 5 horas de duração, espero que seja feita uma mini-série com toda essa riqueza.
A Base: Um documentário de rara sensibilidade a não perder… 10/10
O Melhor: A emoção do filme, o conceito que o estrutura, a fotografia.
O Pior: Há pequenas secções narradas sobre diários que nem sempre parecem fazer sentido.

