Curioso parentesco deste filme da suíça Ursula Meier com o norte-americano “Low Tide”, vencedor de um prémio menor no Festival de Veneza no ano passado. No fundo, trata-se da mesma história de desagregação e desresponsabilização familiar, afetiva e material, com o resultado óbvio da extrema solidão infantil.
Mas se o realizador Roberto Minervini foi buscar nas áridas e quentes terras do sul dos Estados Unidos o simbolismo visual para a sua abordagem, a realizadora franco-suíça tem os majestosos e imensos Alpes como pano de fundo. Em termos de título, a relação também é interessante, com Minervini a sugerir que as marés andam “baixas” enquanto Meier fala em alturas (literalmente o filme chama-se “a criança do alto”).
“Irmã” está praticamente dividido em duas partes – e na primeira não se vai muito além do registar dos percalços do amadurecimento precoce de uma criança de 12 anos (Simon, vivido por Kacey Mottet Klein) que tem de subir os Alpes roubar turistas para conseguir sobreviver.
Paralelamente, a relapsa irmã mais velha com quem ele vive, Louise (Léa Seydoux), usufrui uma vida regada a álcool e sexo, fixando-se no ponto extremo do corte radical de qualquer tipo de vínculo. Com suas longas ausências, parece ter pouco mais a oferecer ao menino do que uma “amizade” despreocupada e desresponsabilizada. Esta existência de resto socialmente marginal fica bem assente na cena da “comemoração do natal” entre os dois – resumida a uma árvore arrancada de um terreno próximo e um casaco roubado oferecido à irmã por Simon.
Na segunda parte, no entanto, uma grande viragem leva a história para uma dimensão muito mais emocional, trazendo ao de cima tonalidades bastante explícitas sobre o que realmente está em jogo – uma violenta crise de afeto que em certos momentos toma um caráter bem concreto e até mesmo “comercializável” – como na sequência em que o garoto tenta “comprar” um lugar na cama da irmã para não dormir sozinho. Na mesma moeda, literalmente, mais tarde ela vai devolver-lhe o dinheiro porque “não quer lhe dever nada”.
Com belo trabalho dos protagonistas, o filme tem um estilo fluído e consistente, escapando na maior parte do tempo dos maneirismos do cinema de autor – como o abuso de closes, dos silêncios e dos tempos mortos. Nem sempre o consegue (como na cena em que filma os irmãos após uma crise a olhar para o lado com expressão torturada), mas é, de forma geral, um filme cativante.
O Melhor: evitar os maneirismos do cinema de autor e contar uma história fluída
O Pior: a diferença emocional entre as duas partes, com interesse claramente superior da segunda
| Roni Nunes |

