«Side Effects» (Efeitos Secundários) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

As doenças e a indústria farmacêutica continuam a ocupar a mente do argumentista Scott Burns e de Steven Soderbergh, a dupla responsável por “Contágio”. Só que ao invés do panorama realista desta obra (mesmo tipo de registo de “Traffic – Ninguém Sai Ileso”, ainda hoje o filme mais completo do cineasta), o que se encontra por aqui é uma espécie de fusão entre a denúncia social e a temporada no inferno de “Erin Brokovich” e o entretenimento puro e duro de “Ocean’s Eleven – Façam as Vossas Apostas”.

A história gira a volta de quatro personagens: a depressiva e suicida Emily Taylor (Rooney Mara), o seu marido recém-saído da prisão por fraude financeira, Martin Taylor (Channing Tatum), o atual psiquiatra de Emily, Jonathan Banks (Jude Law), e a sua médica anterior, Victoria Siebert (Catherine Zeta-Jones). Aquilo que é a história de uma mulher profundamente deprimida a ser tratada por um psiquiatra com doses substanciais de medicamentos transforma-se num thriller conspiratório onde o Big Brother é a sinistra indústria farmacêutica, com seu marketing e seus subornos. Quando o filme parece ter encontrado o seu rumo, o de denúncia social, há uma nova viragem no leme.

O resultado destas mudanças de direção é um filme um tanto descompensado e, já que se está no terreno das mazelas psiquiátricas, ligeiramente esquizofrénico. Com o objetivo de se chegar aquilo que é, afinal, um rocambolesco jogo de interesses pessoais, Soderberg vai sacrificando tudo o que poderia interessar pelo caminho – desde uma abordagem com alguma profundidade da questão da depressão e da dependência dos químicos até uma fixação mais concreta do papel da indústria dos medicamentos na sociedade atual.

A falta de coesão estrutural e temática não impede a obra, no entanto, de ter momentos de grande intensidade (incluindo uma insuspeita cena lésbica de inusitada sensualidade) onde o senão maior é o mesmo de todas as histórias mirabolantes – ou seja, fazer o espetador chegar aquele ponto onde sacrifica voluntariamente o entendimento coerente em nome de um singelo “vamos ver no que isso vai dar”. 

Depois de uma carreira irrequieta e com tantas mudanças de estilo, onde o último capítulo havia sido a bela surpresa que foi “Magic Mike”, espera-se sempre mais qualquer coisa de um filme de Soderbergh. Mas aqui, o que se encontra, é o melhor daquilo que não se espera – puro entretenimento. 

O melhor: funciona bem como entretenimento de qualidade na maior parte do tempo
O pior: a estrutura pouco coesa e as questões abandonadas a meio
 
 
 Roni Nunes
 

Últimas