O entretenimento juvenil aprofunda-se no caminho da hiperrealidade e o onirismo sugerido da versão de 1939 do “Feiticeiro de Oz” ressurge aqui num espetáculo de cores berrantes que não ficaria mal no Baby TV. “Oz Grande e Poderoso” é uma prequela do clássico com Judy Garland, onde se pretende explicar as origens do feiticeiro de Oz (James Franco) e das querelas entre as bruxas Glinda (Michelle Williams) e Theodora, a bruxa do Leste (Mila Kunis) – que aqui ganha uma irmã, Evanora (Rachel Weisz).
As origens do feiticeiro não são muito recomendáveis: de mágico de segunda categoria numa feira itinerante, a “engatatão” de campónias (seduzidas pela sua caixinha de música), o melhor que lhe podia acontecer era mesmo o tornado que o leva até Oz, onde inicia uma jornada heroica para ver se afinal toma juízo e arranja alguns escrúpulos. Para substituir os amiguinhos de Dorothy e Toto ele andará por lá acompanhado de um macaquinho tão falante quanto o burro do “Shrek” e uma boneca de porcelana muito, muito meiguinha.
Não fosse “Oz Grande e Poderoso” sobre o poder do artifício e da pantomina (cuja declaração de intenções se dá na melhor cena do filme, o duelo entre esses atributos do mágico e a força bruta do bruxedo) e ele próprio não se prestaria tão bem para resumir o que se passa por aqui. É que Sam Raimi, com uma realização incrivelmente desinspirada, exibe por trás destas cores agressivas um enorme espalhafato em 3D sem qualquer chama, tão vazio de significado maior quanto os truques baratos que Oz utiliza para ludibriar seus admiradores/inimigos. Ou, pode preferir-se, equivale ao cinetoscópio do adorado ídolo do mágico, Thomas Edison, que na altura nada tinha ver com arte, poesia ou mesmo entretenimento, mas deslumbrava quem o via pelo seu caráter tecnológico. Ao mesmo tempo e no sentido inverso, o filme abstém-se das nuanças dos códigos comportamentos atuais e atua no preto-e-branco dos arquétipos de uma moral ancestral.
Em termos de diversão pura e simples, já se contaram histórias de mágicos batoteiros, de bruxas malvadas e de jornadas oníricas muito melhores, com menos recursos e mais paixão – comparados com um filme onde nem sequer é compensado o esforço de um grande elenco, todos desperdiçados (com ligeira exceção do protagonista) em personagens muito mal delineadas. Até mesmo as homenagens que faz ao seu antecessor (os 20 minutos a preto-e-branco, o número musical dos “Munchkins”) aparecem como referências perdidas e sem um sentido maior.
Com U$ 100 milhões para gastar em marketing e meter essa pílula colorida goela abaixo do seu público alvo, os produtores devem apostar no deslumbre da pirralhada pela caixinha de música de Sam Raimi – mas dificilmente se dará entusiasmo espontâneo pelo verdadeiro encanto do cinema, que aqui está completamente ausente. É que magia, diferente da tecnologia, não se pode comprar.
O Melhor: a cena em que Oz tira o seu grande coelho da cartola – na luta entre o artifício contra a força bruta.
O Pior: a realização de Sam Raimi
| Roni Nunes |

