«Beautiful Creatures» (Criaturas Maravilhosas) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

Enquanto no mundo literário feminino a coisa vai de mal a pior (a luz que se viu no fim do túnel quando Stephenie Meyer entregou o último exemplar da sua “telenovela” era o do comboio sadomasoquista de E.L. James), no cinema a coisa até está a melhorar. Pelo menos para quem não é acionista da Sumitt, a companhia que lançou a saga vampiresca. É que para eles está difícil encontrar um substituto à altura em termos de rentabilidade.

E talvez um dos problemas seja o facto de estarem a tentar fazer algo com mais qualidade. O cruzamento de humanos com zombies de “Sangue Quente” rendeu um filme meio tolo, mas também com qualidades, revelando um humor subtil e algumas boas piadas. Já este “Criaturas Maravilhosas” vai mais além e traz momentos de verdadeiro requinte. É claro que resumir os momentos iniciais do filme faz com que qualquer pessoa traumatizada com a recém-finalizada doença de Seattle prefira cometer o harakiri a ver isso. Mas convém não esquecer que as surpresas, por vezes, vêm de onde menos se espera. 

A história também passa-se na parvónia, mas esta é um tanto mais atrasada e fundamentalista que a do “Crepúsculo”: aqui a era de ouro da Idade Média cristã ainda parece não ter acabado, com o estudante e narrador Ethan Wate (Alden Ehrenreich) a explicar que a cidade tem uma única biblioteca (com inúmeros livros proibidos) para 12 igrejas. É nas “casas do Senhor” que os habitantes se reúnem para viver a sua experiência comunitária e destilar o seu ódio ao satanista (dizem eles) Macon Ravenwood (Jeremy Irons). E é na única escola do lugar que vai cair de para-quedas a sobrinha dele, Lena Duchannes (Alice Englert), completamente rejeitada e odiada por todos – menos, claro, por Ethan. Quem adivinhar o que acontece a seguir ganha uma varinha de fazer magia.  

Uma das qualidades de “Criaturas Maravilhosas” vem do relativamente modesto orçamento (para o tipo de obra que é) – obrigando o realizador Richard La Grevenese a dar um uso contido aos efeitos visuais e a concentrar-se em contar uma história ao invés de soterrar o ecrã (e a paciência) com a parafernália visual dos filmes de fantasia. E desenvolver o enredo é algo que faz com razoável qualidade. É claro que está lá o romance rotineiro, com os seus interditos, maldições e juras de amor eterno, assim como todas as previsibilidades. Mas há uma atenção ao pormenor muito interessante, desenvolvendo uma história em que o poder vem dos livros e não faltam longas e densas citações de Kurt Vonnegut e Charles Bukowski – para não dizer que a mais bela e imprevisível magia da feiticeira meteorológica Lena é fazer aparecer versos de poesia no teto. Ficam ainda umas espertas citações cinematográficas e umas referências anedóticas politicamente incorretas (entre as quais uma excelente piada sobre Nancy Reagan). 

Se falta algum carisma a Englert, a acrescentar um toque de classe à obra está um elenco secundário de luxo – que além de Irons conta com Emma Thompson, Viola Davis, Emma Rossum e Eileen Atkins. “Criaturas Maravilhosas” prova que o cinema com um público-alvo adolescente não tem de ser mau. Resta eles concordarem com isso.

O Melhor: os pormenores, o elenco secundário, o uso comedido de efeitos visuais
O Pior: é a história de um romance proibido, com tudo o que isso acarreta…
 
 
 Roni Nunes
 

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