«Quarta Divisão» por João Miranda

(Fotos: Divulgação)

Há já alguns dias que estou para escrever esta crítica. Se a mensagem deste filme, pelo menos a que aparece por escrito mesmo antes dos créditos, é importante e válida e se a produção portuguesa é algo que se quer, por outro lado este filme não deixa de ser uma desilusão, até para as expetativas reduzidas com que normalmente entro para os filmes de ficção portuguesa (sim, porque nos documentários o cinema português está bem e recomenda-se). A dúvida que me tem atormentado estes dias é: como posso criticar o filme e as suas falhas, sem parecer uma besta insensível à mensagem do filme e às dificuldades do cinema português? Comecemos pelo melhor. 

Se ainda sofre um bocado de um ar de telefilme, vê-se o cuidado e a qualidade da técnica usada, com os planos interiores e exteriores bem iluminados, uma fotografia suficiente e um som claro e perceptível. As representações, ainda que falhem um pouco a nível de tempos, mostram alguma dedicação por parte dos atores e que estes tentaram colaborar com a PSP para tentar mostrar a realidade do dia a dia de uma brigada de investigação, com a pequena exceção de Cristina Câmara, que se arrasta pelo filme, com pouco mais expressão do que as paredes que vão sendo filmadas. 

Qual, então, o problema do filme? Consegue evitar a miséria que tanto fascina os burgue… humm, os realizadores portugueses, mas sacrifica qualquer coerência arrastando-nos atrás do que o argumentista pensa que é um twist, levando-nos primeiro ao mundo da pedofilia e depois ao da violência doméstica e ficando pelo caminho vários temas que é óbvio que este acha importantes, mas sem nunca serem explorados a fundo. Até nem é esse o problema do argumento. O problema é que parece que foi feito por um grupo de miúdos da secundária, cheios de certezas e poucos fundamentos, mais pensado a nível de estereótipos do que na realidade. A ver: todos os estereótipos de filmes policiais, presentes (até a suspensão da personagem principal, só faltou atirar com o distintivo!), violação na prisão, presente, personagens unidimensionais e maniqueístas, presentes, … é um filme em que se afirma constantemente que alguém é tão poderoso que pode tudo, inclusive a suspensão da sub-comissária, só para ir para a prisão no momento a seguir (parece que de repente lhe falharam os amigos ou se calhar a PJ é menos influenciável que a PSP, não percebi) e isto só porque a história assim o quer, sem qualquer sentido ou justificação. 

É essencial que a produção portuguesa não pare, que continue até mesmo na forma destes telefilmes de distribuição limitada, mas, se somos continuamente presenteados por ficção de segunda (neste caso de quarta, como indica o nome), é normal que os espectadores se afastem dela. Pena.
 
O Melhor: A qualidade técnica, o trabalho dos atores.
O Pior: O argumento, Cristina Câmara.
 
 
 João Miranda
 

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