«Et si on vivait tous ensemble?» (E se Vivêssemos Todos Juntos?) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

No ano da consagração surpreendente de um filme sobre a terceira idade (“Amor”, de Michael Haneke) esta obra bem mais simples em termos de pretensão estética aborda o mesmo tema de uma forma muito menos árida. 

Bem-sucedido nas bilheteiras francesas, “E se Vivêssemos Todos Juntos?” começa por apresentar os cinco amigos que vão auxiliando-se mutuamente na hora de enfrentar as mazelas da idade avançada. Há o ativista social e temperamental Jean (Guy Bedos), a sua esposa Annie (Geraldine Chaplin), saudosa da filha e dos netos, o seu amigo Albert (Pierre Richard), a cada dia mais afetado pela Doença de Alzheimer, a sua esposa Jeanne (Jane Fonda), cheia de vigor e ao mesmo tempo condenada por uma doença terminal e o fotógrafo Claude, com 75 anos e ainda bastante obcecado por sexo e por seu passado de “galã”. 

O filme tenta abordar a velhice buscando um equilíbrio entre a comédia (nunca exagerada nem pateta) e a dura realidade do processo de envelhecimento, marcado pela doença, pela solidão e, no caso em questão, também pelo peso do passado. Ao mero retrato sociológico –  que ficaria bem nas pesquisas do estudante de etnologia Dirk (Daniel Brühl), que junta-se a eles para as suas pesquisas sobre o envelhecimento na Europa – o argumentista/realizador Stéphane Robelin adicionou uma componente dramática. Trata-se de um segredo do passado que acabará por afetar a fantasia coletivista dos amigos.

Se este filme ensolarado (não há uma única cena com noite ou chuva) consegue aquele equilíbrio tão típico do cinema francês entre humor e temáticas sociais, por outro nunca vai muito além da superfície, pecando pelo simplismo com que resolve algumas situações. O título original (traduzido à letra no lançamento em Portugal) também não ajuda muito, entregando o desenrolar de algo que acontece já bem passado o primeiro terço do filme.

Sem chegar a estados de espírito da brutalidade de um “Amor” ou à catarse existencial de “Invasões Bárbaras”, “E Se Vivêssemos Todos Juntos” consegue, sem carregar demasiado nas tintas, ter bons momentos de humor, emoção e poesia. A obra, que conta com um elenco de grande qualidade, capta com uma melancolia leve a distância entre aquilo que um dia foi importante para cada um deles (o ativismo social, a família, o amor, a paixão, por exemplo) e o lento eclipse dos desejos de cada um. 

O melhor: consegue um interessante equilíbrio entre o cómico e dramático
O pior: algumas situações pecam pelo simplismo, pela incoerência ou pela previsibilidade
 
 
 Roni Nunes
 

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