Narcotraficantes, terroristas e extraterrestres andam a forjar na surdina uma conspiração em escala global. É por isso que os ecrãs têm sido invadidos, neste início de ano, pela malta da cacetada. Jason Statham apareceu com “Parker”, Bruce Willis com o último “Die Hard” e agora vem este com Arnold Schwarzenegger, ficando ainda por estrear em março os novos de Sylvester Stallone (“Bala Certeira”) e de Dwayne Johnson (“Snitch – Infiltrado”).
Statham, Stallone e Schwarzenegger sofreram um nocaute nas bilheteiras, onde só devem safar-se Willis e o The Rock. Já no quesito qualidade, a estatueta (já que estamos em tempos de Óscares) deve ficar sem sobressaltos para o ex-governador da Califórnia, que sempre teve um agente superior à sua capacidade dramática. Em “O Último Desafio” ele entra, mais uma vez, senão num filme bem-sucedido comercialmente, pelo menos em algo bastante digno.
Com ecos do Clint Eastwood e seus papéis de velho reformado, ele é Ray, um xerife que já foi das Narcóticos de Los Angeles e agora assiste ao pôr-do-sol num buraco do Arizona – onde o acontecimento mais emocionante da semana foi o salvamento de um gato. Paralelamente, um narcotraficante muito malvado (Eduardo Noriega) faz uma fuga sensacional quando ia a caminho da execução em Las Vegas e é objeto de uma perseguição tão implacável quanto ineficaz do FBI, liderado pelo agente John Bannister (Forest Whitaker). Torna-se bem possível que pelo caminho até ao México que eles vão ter de perturbar a paz de Ray e dos seus amigos pacóvios – os polícias vividos por Jamie Alexander, Luís Guzman e Zach Gilford, o colecionador de armas Lewis Dinkurn (Johnny Knoxville) e o presidiário Frank Martinez (Rodrigo Santoro).
A grande façanha do realizador sul-coreano Kim Ji-Woon (responsável por uma alucinada versão asiática do western spaghetti de Sergio Leone “O Bom, O Mau e O vilão”) é misturar todos os clichés e arquétipos do género com uma leveza e um sentido de humor que torna um dos filmes mais divertidos dos últimos tempos – para além de um objeto de exceção no reino do lixo absoluto que é o cinema de ação.
Há de tudo: carrões ultra velozes, máquinas de matar de todos os tipos, explosões, mega vilões, fugas e perseguições espetaculares e, obviamente, uns sopapos corpo-a-corpo. Para o festim estar completo só faltaram as mulheres seminuas (não se pode ter tudo…). Os personagens têm densidade e carisma. O elenco, tirando Schwarzie, que agora frequenta a mesma clínica da Lili Caneças, é excelente.
Enquanto o filme segue na velocidade alucinante do “batmobile” de Noriega, até se fica à espera de quando algum despiste vai empurrá-lo para um choque em cadeia e imobilizá-lo num desagradável engarrafamento. Nada disto acontece, antes pelo contrário: depois de toda a confusão ainda há um pequeno “twist” para o final. Puro luxo.
O Melhor: ser tudo aquilo que um filme de ação deveria ser
O Pior: o falhanço comercial do filme eventualmente hipotecar as possibilidades internacionais de Kim Ji-woon
| Roni Nunes |

