«Broken City» (Cidade Dividida) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)
 

O fascínio do cinema noir parece eterno e qualquer ator que se encontre em posição de apadrinhar um projeto lá vai buscar o seu para mostrar talento. Neste caso, é Mark Wahlberg quem procura serviço de jeito e co-produz este mergulho à “Chinatown” (o filme) na Nova Iorque contemporânea. Mas se nem todo argumentista é Robert Towne e nem todo o realizador é Roman Polanski, ninguém pode acusar os envolvidos de não serem ambiciosos. 

Esta força de vontade começa pela história, com a sua profusão de personagens, reviravoltas e temáticas. O centro é o ex-polícia e atual detetive particular Billy Taggart (Wahlberg), contratado pelo presidente da Câmara da cidade, Nicholas Hostetler (Russell Crowe) ,para investigar um suposto envolvimento adúltero da sua esposa Cathleen (Catherine Zeta-Jones). A investigação coincide, no entanto, como o vertiginoso período das eleições municipais na sua reta final, na qual estão envolvidos o comissário Fairbanks (Jeffrey Wright), desafeto de Hostetler, o seu adversário político Jack Valliant (Jerry Pepper) e o seu assessor Paul Andrews (Kyle Chandler). 

Essa mistura de investigação do detetive decadente com as mazelas dos bastidores políticos (ou, se quisermos, uma mistura de história noir com “A Fogueira das Vaidades”) desenrola-se tendo como pano de fundo o tecido social da “big apple”. Os ricos aparecem metidos na política, nos jogos de poder, na corrupção e nas suas relações de interesse; os pobres à mercê do seu próprio destino, agarrando-se ao seu bairro social prestes a ser liquidado ou tentando desesperadamente construir uma carreira (a namorada de Taggart, vivida por Natalie Barrows). Os artistas dão um colorido ao quadro, com suas vaidades, alguma metalinguística e o cinema indie como típico apanágio de Nova Iorque. 

O realizador Allen Hughes, que trabalhou quase sempre com o irmão Albert (eles fizeram “A Verdadeira História de Jack, O Estripador” e “O Livro de Eli”), aqui foi abandonado pelo partner no meio do fogo cruzado inventado pelo argumentista estreante Bryan Tucker e vê-se “às aranhas” para administrar tantos ingredientes e sair-se com um bolo comestível. A cena em que Taggart circula bêbado e esmo pelas ruas da cidade, com a imagem desfocada e ângulos desenquadrados, funciona bem como reflexo do próprio filme: tudo em “Cidade Dividida” fica marcado pelo complexo problema da falta de foco e o próprio registo estilístico de Hughes é tão indefinido e multifacetado (num mal sentido) que chega a ser inexistente.

Mas tal como nos múltiplos twists com que Tucker vai sustentando o seu argumento serpentante, o realizador consegue, por seu turno, manter a atenção do espectador quase sempre no máximo: há momentos onde simplesmente tudo funciona e “Cidade Dividida” vence os seus problemas de ritmo para se converter numa história eletrizante situada na noite da política de Nova Iorque, onde todos os gatos são pardos… 

Hughes foi bem-sucedido na direção de um casting de qualidade, a serviço de personagens que, a despeito de sua quantidade, têm densidade suficiente para criar emoção e interesse (até mesmo uma bem secundária, como a assistente de Taggart vivida por Alona Tai) – onde também ajudou bastante não os soterrar com moralismos toscos. 

No final das contas, com tantas reviravoltas lá pelo meio, não deixa de ser surpreendente que ainda se tenha guardado alguma de qualidade para o final, mas felizmente é o que acontece.

O Melhor: a força dos personagens/interpretações e, apesar de tudo, a história
O Pior: a dificuldade em manter um foco para os temas e o enredo
 
 
 Roni Nunes
 

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