As humilhações públicas para as traições conjugais dos tempos de Madame Bovary passaram à história, o que não implica que o adultério (ou o desejo dele) coloque em menores apuros os seus protagonistas. Se o nosso mundo já não comporta os chicoteamentos diante da sociedade (como a encenação do início filme), os reiterados closes de Michelle Williams servem para reforçar a ideia de que foram-se os tormentos sociais, ficaram os problemas íntimos e existenciais – igualmente complexos.
Novo filme como realizadora da atriz canadiana Sarah Polley depois da consagração com “Longe Dela”, que lhe rendeu uma nomeações ao Oscar de Melhor Argumento Adaptado e a Julie Christie a nomeação para Melhor Atriz em 2008. Naquele filme, os relacionamentos afetivos estavam pesadamente interligados com a tragédia da protagonista, que sofria de Alzheimer.
Sem um ponto de partida tão fatídico, os problemas aqui começam porque a desocupada Margot (Williams) conhece um desconhecido (Luke Kirby) quando fazia turismo. Para além de ser atraente e inteligente, ele ainda tem aquele velho apelo do artista diletante que não expõe suas obras e conduz um riquexó pelas ruas de um colorido subúrbio de Montreal. Isso faz o quotidiano da pacata esposa de um mestre da culinária (Seth Rogen) parecer cinzento.
Todas as qualidades de “Longe Dela” mantêm-se no segundo trabalho da cineasta. Aqui o seu apreço pelo registo naturalista enquadra uma obra que escapa às considerações morais para centrar-se nos problemas da afetividade, dos sentimentos e da culpa. Sem as pieguices do costume, “Take this Waltz” até consegue razoavelmente escapar aos inevitáveis clichés de um tema tão batido, temperado por alguns momentos bastante cómicos (como a cena da piscina).
No todo é um filme bonito de se ver, embora por momentos demasiado arrastado e sem que diálogos particularmente relevantes preencham alguns espaços vazios. Mas cabe bem falar em momentos por preencher: “A vida é plena de lacunas que não se pode andar a tentar preencher ‘à maluca’”, sustenta sua cunhada Geraldine (Sarah Silverman).
É por isso que Sarah Polley resolve seus dilemas baseada no conceito de circularidade, onde tudo que é novo um dia chegará a velho – e utilizando interessantes metáforas como as rodas-gigantes e a falsa “valsa” de Leonard Cohen que dá título ao filme. Belo desenlace para uma temática conhecida e já milhares de vezes abordada. Má nota para o título português, que tenta vender “gato por lebre” e fazer o filme parecer mais estúpido do que aquilo que é.
O Melhor: o realismo naturalista e o desenlace pouco previsível
O Pior: demasiado arrastado em alguns momentos
| Roni Nunes |

