Deve haver alguma misteriosa espécie de catarse em se assistir a perseguições, destruições de carros, explosões e, o grande fetiche do franchise “Die Hard”, helicópteros a irem à vida de forma espetacular. Para quem lida com os seus traumas de outra forma, espera-se pelo menos uma história razoável para enquadrar a ação e garantir algum tipo de diversão.
Depois de melgar a filha no quarto filme do franchise (“Die hard 4.0 – Viver ou Morrer”), agora o papá John McClane (Bruce Willis) mete-se na vida do filho, Jack (Jai Courtney), igualmente desagradado com ele. O agente está sossegadamente a usufruir as suas férias (a praticar tiro ao alvo…) quando fica a saber que o seu herdeiro está metido em grandes sarilhos, encarcerado numa prisão russa. Quando vai para lá ajudá-lo, os dois terminam por envolver-se no meio de uma guerra entre dois criminosos russos.
O fiapo de história serve para as peripécias do costume e para a família McClane virar Moscovo de cabeça para baixo. O problema aqui é que, diferente de alguns bons momentos do franchise (o anterior filme de Len Wiseman, por exemplo), não há nada que justifique maiores atenções para quem não seja fanático da série. O argumento é péssimo, a realização de John Moore (“Max Payne”) não tem qualquer personalidade e até mesmo as tradicionais piadas de McClane vão todas ao lado. Humor mesmo, só involuntário.
Para uma série que nunca se sentiu intimidada na hora de recorrer a “licenças poéticas”, em “Nunca é Bom Dia Para Morrer”, as cenas de ação cruzam claramente a fronteira entre a diversão leve e a estupidez pura e simples – com cenas tão artificiais que mais parecem um jogo de playstation. Neste sentido, destaque negativo para a interminável sequência de perseguição pelas ruas de Moscovo no primeiro terço do filme.
Em termos “temáticos”, a obra aparece com um enquadramento completamente fora de tempo, indo buscar vilões russos que ressurgem tão estereotipados quanto as personagens de milhares de filmes de propaganda feitos durante a Guerra Fria (que acabou em 1991) – e com a glorificação da CIA e dos norte-americanos no sentido inverso. Curioso retrocesso para o tiro certeiro que era um conflito baseado no mundo dos hackers, que era o caso da obra de Wiseman.
E há o drama pai e filho, criado para dar uma dimensão humana ao filme e preencher os espaços entre uma cena de pancadaria e outra. Fiéis ao espírito da série, os McClane resolvem os seus problemas familiares aos tiros. Num momento de animosidade, o filho não hesita em espetar uma arma na cara do pai, informando-lhe: “sai da minha frente ou eu atiro”!
Mas o pai sente-se muito culpado por ter passado a vida a ser herói enquanto negligenciava a família (mal do qual já se queixava no filme anterior) e então não poupa esforços para resgatar a amizade de Jack. Vem daí um dos grandes momentos de comunhão e cumplicidade familiar da história do cinema, quando o candidato a pai do ano, John, diz: “Anda filho, vamos matar uns ‘bad guys’”!
Filme concebido pelos produtores entre uma ida à casa de banho e outra, feito sem inteligência, sem ambição (a não ser a do lucro fácil) e executado por gente tão sem cultura (Willis e Courtney incluídos) que nem sabem que Grenoble não fica na Suíça.
O Melhor: diferente dos outros, só tem 97 minutos
O Pior: o argumento, a realização e a “temática”
| Roni Nunes |

